Continuação)
No centro de comando da Unidade de Contenção, os monitores de holograma explodiram em tons de violeta e carmesim. O gráfico de batimentos cardíacos de William, que antes era uma serra frenética, agora corria em uma linha perfeita, sincronizada com a de Est.
— Est! Responda! — A voz do Comandante Joong estalou no comunicador de ouvido do agente. — O que aconteceu? Por que a anomalia parou? Est, finalize o alvo imediatamente!
Est não respondeu. Seus dedos ainda estavam mergulhados na pele de William, sentindo a música que agora fluía entre eles como um rio. William o olhava com um terror reverencial, como se Est fosse uma divindade feita de paz.
— Eles estão vindo — William murmurou. Sua voz não era mais um trovão; era suave, mas carregava o tremor de décadas de dor. — Se você não me matar agora, eles vão nos transformar em algo pior do que a morte.
Est finalmente desviou os olhos de William e olhou para a ampola de sedativo quebrada no chão. O líquido azul escorria entre os cacos. Ele era um agente do Vácuo. Ele não tinha vontade própria, não tinha desejos, não tinha música. Ou, pelo menos, era o que ele acreditava até aquele segundo.
— Eu não consigo... — Est sussurrou, mais para si mesmo do que para o rádio. — Eu não consigo silenciar isso.
— Est! — A voz no rádio agora era um grito. — Protocolo de Contenção Geral ativado. Se você não agir, a câmara será inundada com gás neurotóxico em sessenta segundos. Aborte a missão e saia agora!
Est olhou para as mãos de William. As pontas dos dedos do gigante ainda fumegavam levemente, resquícios da energia destrutiva que ele carregava. Se Est se afastasse, o inferno de William voltaria. William voltaria a ser um monstro, e Est voltaria a ser nada.
— Você consegue andar? — Est perguntou, sua voz ganhando uma firmeza que ele não sabia que possuía.
William piscou, atordoado. — O quê?
— Você consegue andar? — Est repetiu, levantando-se e puxando William consigo. No momento em que a distância entre eles aumentou alguns milímetros, o ar começou a estalar novamente. William soltou um gemido de dor, o ruído voltando a martelar seu crânio.
Est rapidamente agarrou o pulso de William, apertando-o com força. O silêncio retornou instantaneamente como uma lufada de ar fresco. — Nunca solte minha mão.
William olhou para a mão pequena e pálida de Est fechada sobre seu pulso largo e marcado por cicatrizes.
— Eles vão caçar você, Pequeno Vácuo. Você está jogando sua vida fora por um rádio quebrado como eu.
— Eu nunca tive uma vida — Est respondeu, puxando-o em direção à porta de saída. — Eu só tinha silêncio. Mas a sua música... eu não vou deixar ninguém desligá-la.
Eles saíram da cela no exato momento em que as sirenes de gás começaram a girar.
O corredor, antes deserto, agora estava inundado por luzes estroboscópicas vermelhas. Ao longe, o som pesado de botas de combate e o tilintar de armas automáticas denunciavam a aproximação da equipe de resposta rápida.Est conhecia aquele labirinto melhor do que ninguém. Ele era a arma deles, e agora, ele estava levando a maior ameaça do mundo pela mão, como se fossem amantes fugindo de um baile proibido.
— William — disse Est, sem olhar para trás enquanto corriam. — Quando cruzarmos aquele portão, o mundo vai tentar nos separar. Sua frequência vai tentar destruir tudo, e o meu vácuo vai tentar te apagar.
William apertou a mão de Est, retribuindo o contato. Pela primeira vez em sua vida, o "Dissonante Negro" sorriu, embora fosse um sorriso carregado de melancolia.
— Então vamos dar a eles algo que eles nunca ouviram antes.
Est parou diante do painel do elevador de serviço e, em vez de usar seu código de acesso, ele simplesmente arrancou a placa de circuitos. Ele olhou para William.
— Eu preciso que você solte um pouco. Só um pouco.
William entendeu. Ele afrouxou o aperto na mão de Est por um segundo. Foi o suficiente.
Uma descarga de energia pura saltou de sua pele, sobrecarregando o sistema do elevador e forçando as portas a se abrirem. Antes que o caos se espalhasse pelo prédio, Est agarrou William novamente, trazendo o silêncio de volta.Eles entraram no elevador enquanto as primeiras balas de borracha e dardos paralisantes ricocheteavam nas portas de metal que se fechavam.
O elevador começou a subir para a superfície. Para o mundo real. Para onde bilhões de pessoas viviam em suas frequências controladas, sem ideia de que a "Sinfonia" estava prestes a
sofrer sua primeira e última interferência.
