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Chapter 6 - O Eco do Futuro no Papel Pardo

O sol de março em Los Angeles não era apenas uma fonte de luz; em 1965, ele parecia um refletor de 10.000 watts focado permanentemente na nuca de Leo. Ele estava no pátio da Universal há doze horas, e o termo "gofer" nunca fizera tanto sentido. Ele "ia buscar" (go for) tudo: cabos, rosquinhas, silêncio e, o mais humilhante, a boa vontade de homens que não sabiam seu sobrenome.

— Leo! 10-1 agora! — gritou o AD Miller pelo rádio transistorizado. — E quando voltar do banheiro, traga o balde. O "honeywagon" está vazando de novo perto do Set 3.

Leo sentiu o estômago revirar. O "honeywagon", o trailer de banheiros portáteis da produção, era o pesadelo de qualquer assistente de produção. Em 2026, ele tinha equipes de saneamento terceirizadas para isso. Em 1965, ele tinha um par de luvas de borracha amarelas e um senso de destino que se recusava a morrer.

Enquanto caminhava em direção ao Set 3, onde Rock Hudson e Claudia Cardinale filmavam cenas de Blindfold, Leo passou por um grupo de carpinteiros que discutiam o grande evento daquela semana: a estreia de The Sound of Music no Fox Wilshire Theatre.

— Robert Wise vai ganhar o Oscar, anotem o que eu digo — comentava um veterano, soprando a fumaça de um Marlboro. — É o filme mais caro da história, mas vai salvar a Fox da falência depois do desastre de Cleópatra.

Leo sorriu por dentro enquanto limpava o suor da testa. Ele sabia que Wise não apenas ganharia o Oscar, mas que o filme se tornaria a maior bilheteria da história até aquele momento, superando E o Vento Levou. No entanto, em sua pasta de couro, escondida sob o banco do caminhão de transporte, ele tinha o roteiro que, em dez anos, mataria a era dos musicais e inauguraria a era do medo. O futuro era um jogo de paciência.

...

A rotina de um PA em 1965 era uma forma de escravidão glorificada pelo brilho do Technicolor. Leo passava o dia executando o "lock-down" de ruas, parando o tráfego real com apenas um apito e uma placa de papelão para que o som dos motores de 2026 — ou melhor, de 1965 — não poluísse a fita magnética da produção.

À tarde, ele foi designado para ajudar no Set 14. O diretor Andrew McLaglen estava mal-humorado. A luz do dia estava acabando e eles ainda não tinham o "Abby Singer" — o penúltimo plano do dia.

— Leo, faça o figurante fazer a "banana" à esquerda — ordenou o gaffer. — Ele está bloqueando o reflexo no carro.

Leo correu para o set, instruindo o ator a caminhar em uma trajetória curva para compensar o ângulo da lente, uma técnica simples que evitava sombras indesejadas. Ele se movia com a agilidade de quem conhecia cada centímetro de um set, mesmo que aqueles equipamentos Mitchell de 35mm pesassem o triplo das câmeras digitais de sua vida anterior.

Seu único momento de paz era o almoço. Enquanto a equipe devorava bifes com molho Thousand Island no refeitório, Leo se escondia atrás dos cenários de "Velho Oeste" com uma lata de Maxwell House morna e seu bloco de notas. Ele estava estruturando o terceiro ato de Love Story.

Ele escrevia sobre a morte de Jenny com uma frieza técnica. Ele sabia que a frase "Amar significa nunca ter que pedir perdão" se tornaria um mantra mundial. Ele estava datilografando o sucesso, batida por batida, enquanto suas costas doíam pelo peso das escadas que carregara mais cedo.

— O que você tanto escreve, garoto? — Uma voz suave o assustou.

Ele olhou para cima e viu Claudia Cardinale. Ela estava com o figurino de Blindfold, o rosto iluminado pelo sol da tarde, parecendo uma deusa esculpida em luz e sombra.

— Só notas de produção, senhorita Cardinale — mentiu Leo, fechando o bloco rapidamente.

Ela olhou para ele com curiosidade. Seus olhos eram astutos.

— Você não tem os olhos de um carregador de cabos. Você tem os olhos de quem está contando os dias para nos governar.

Ela deu uma risadinha, aceitou o café que ele lhe ofereceu e voltou para o trailer. Leo ficou estático por um momento. Até as estrelas de 1965 podiam sentir o deslocamento temporal em sua aura.

...

O dia terminou às 20:30, após o "Martini Shot" — o último plano do dia. Leo estava exausto, coberto de poeira e graxa. Ele pegou o ônibus para Burbank, sua mente um borrão de diálogos de tubarões e melodramas universitários.

Ao chegar no hotel decrépito, seu ritual era sempre o mesmo: ele ignorava a dor nas pernas e ia direto para os escaninhos de madeira atrás do balcão da recepção.

— Alguma coisa para o 402? — perguntou ele ao recepcionista, um homem que parecia ter sido esquecido pelo tempo.

O homem vasculhou uma pilha de envelopes pardos e cartas comerciais.

— Vejamos... cobrança de luz, uma circular da associação de veteranos e... isto. Chegou no correio da tarde.

Ele deslizou um envelope longo e elegante sobre o balcão. No canto superior esquerdo, o logotipo que fez o coração de Leo errar uma batida: William Morris Agency - New York Office.

Leo pegou o envelope. O papel era pesado, caro, com a textura de autoridade que só o dinheiro antigo de Manhattan podia comprar. Ele não o abriu ali. Subiu as escadas correndo, os pulmões de 22 anos queimando de uma forma que o Leo de 2026 nunca suportaria.

Ele entrou no quarto, trancou a porta e sentou-se na beira da cama desfeita. Suas mãos tremiam enquanto ele usava o isqueiro Zippo para rasgar o lacre do envelope.

Lá dentro, havia uma única folha de papel. A assinatura na parte inferior era inconfundível: Norman Brokaw.

“Prezado Sr. Leo,” a carta começava. “Recebi seu manuscrito intitulado 'Jaws'. Devo confessar que o volume de submissões que atravessam minha mesa é proibitivo, mas o parágrafo inicial de sua obra me impediu de devolvê-la ao 'slush pile'. Há uma crueza em sua narrativa que não pertence a este mercado de literatura de salão. Eu gostaria de discutir os direitos de representação e sua visão para uma possível adaptação cinematográfica.”

Leo soltou o ar que nem percebera estar segurando. Norman Brokaw era o agente que representava Marilyn Monroe e Elvis Presley. Se ele estava interessado, a porta não estava apenas aberta; ela fora arrancada das dobradiças.

Mas a carta continuava com um tom mais cauteloso:

“No entanto, notei que o estilo de sua prosa parece estranhamente... moderno. Quase como se tivesse sido escrito por alguém que já viu o filme que ainda não fizemos. Estarei em Los Angeles na próxima quarta-feira para a estreia de 'The Sound of Music'. Gostaria de encontrá-lo para um café no Polo Lounge, às 10:00 da manhã.”

Leo olhou para a sua Smith Corona na mesa. O metal azul brilhava sob a lâmpada fraca. Ele era um "ninguém" que limpava banheiros na Universal durante o dia, mas agora, o homem que sussurrava nos ouvidos dos reis de Hollywood queria ouvi-lo.

Ele tinha seis dias. Seis dias para terminar o primeiro rascunho de Love Story e garantir que ele não parecesse apenas um autor de um único sucesso.

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