O ar-condicionado da Torre Negra da MCA estava regulado para dezoito graus, mas a tensão na sala de reuniões de Lew Wasserman era suficiente para derreter o gelo nos copos de cristal. Leo Stone estava sentado na ponta da mesa, examinando as provas de figurino para a adaptação cinematográfica de Love Story. Ele não estava apenas agindo como o autor; ele era o arquiteto do "Talent Packaging" que ditaria as regras do próximo Oscar.
— Stone, você é persistente, mas isso é um erro — disse Arthur Hiller, o diretor que Leo insistira em contratar para o projeto. — A Universal quer uma estrela consagrada para o papel de Jenny. Estão falando em Natalie Wood. Ela tem o nome, ela tem o peso.
Leo Stone soltou uma nuvem de fumaça de seu Lucky Strike e olhou para Hiller com um cinismo que fez o diretor desviar o olhar.
— Natalie Wood é o passado, Arthur. Eu quero o futuro. E o futuro tem um rosto que ninguém no cinema viu ainda. — Leo deslizou uma fotografia em preto e branco sobre a mesa. — O nome dela é Ali MacGraw. Ela é assistente da Diana Vreeland na Harper’s Bazaar. Nunca atuou, mas ela é Jenny Cavilleri.
Wasserman, observando silenciosamente atrás de seus óculos de aro preto, pegou a foto.
— Uma modelo? Stone, você está apostando dez milhões de dólares em uma garota que organiza cabides em Manhattan?
— Estou apostando na autenticidade, Lew. O público jovem está cansado de atrizes de trinta anos fingindo ser universitárias. Ali tem o brilho. E para Oliver Barrett IV, eu quero o garoto de Peyton Place, Ryan O'Neal. Ele tem a raiva contida e a mandíbula que o público vai querer ver chorando no Natal.
Leo sabia que a química entre os dois seria o combustível que transformaria Love Story em um fenômeno de bilheteria global, superando até mesmo The Sound of Music em rentabilidade líquida.
...
A Caçada ao Padrinho
Enquanto a Universal se preparava para levar a equipe de filmagem para o frio de Boston em julho, a mente de Leo Stone já estava em outro lugar. Ele estava no aeroporto de LAX, prestes a embarcar para Nova York. Norman Brokaw o acompanhava, visivelmente intrigado.
— Stone, por que estamos indo para Manhattan no meio do verão? Você tem uma editora para gerenciar em Connecticut e um filme entrando em produção.
— Há um homem em Nova York que está prestes a desistir, Norman. E se ele desistir, Hollywood perde a sua alma — Leo disse, olhando para as nuvens pela janela do Boeing 707.
Leo sabia exatamente onde encontrar Mario Puzo. Em 1965, Puzo era um escritor de quarenta e cinco anos, exausto, trabalhando para revistas masculinas baratas da Magazine Management Company. Ele acabara de publicar The Fortunate Pilgrim, que recebeu ótimas críticas, mas vendas desastrosas. Puzo estava devendo vinte mil dólares para agiotas e casas de apostas, e sua próxima ideia — um livro sobre a máfia — era seu último ato de desespero.
Eles encontraram Puzo em um café esfumaçado perto da 42nd Street. O autor parecia uma sombra de si mesmo, com migalhas de rosquinha na camisa e olhos pesados de quem não dormia há décadas.
— Sr. Puzo — Leo disse, sentando-se à mesa sem ser convidado. — Meu nome é Leo Stone. Eu escrevi o livro sobre o tubarão que você deve ter visto nas vitrines.
Puzo levantou os olhos, surpreso pela audácia do jovem.
— Stone? O garoto de ouro da Universal? O que você quer com um homem que escreve sobre viúvas imigrantes e não vende nem cinco mil cópias?
— Eu quero o que você tem na sua gaveta, Mario. Eu sei que você está trabalhando em algo chamado Mafia. Eu sei que você precisa de dinheiro para pagar os agiotas e levar seus cinco filhos para a Europa.
Puzo travou. Ele não contara a ninguém sobre o título provisório ou sobre a extensão de suas dívidas.
— Como você...
— Isso não importa. O que importa é que Robert Evans ainda não é o chefe da Paramount, e o Sr. Wasserman me deu autoridade para buscar novas Propriedades Intelectuais. — Leo deslizou um envelope pardo sobre a mesa. — Aqui estão vinte mil dólares em dinheiro. Sem perguntas. Isso limpa sua ficha com os agiotas hoje mesmo.
Puzo olhou para o envelope com uma fome quase animal.
— E em troca?
— Eu quero a opção cinematográfica exclusiva para a Stone Productions. E quero que você mude o título. Mafia é genérico demais. Chame de "The Godfather". Escreva-o com foco na família, na tragédia grega, não apenas na violência. Faça de Vito Corleone um rei, não um bandido.
Puzo pegou o envelope. Suas mãos tremiam.
— Por que você está fazendo isso, Stone? Você poderia esperar eu terminar e comprar por menos.
— Porque eu já vi o sucesso que este livro vai ser, Mario. E eu não quero que você o escreva com pressa. Tire três anos. Faça uma obra-prima. — Leo levantou-se, ajeitando o paletó. — Norman cuidará dos papéis da William Morris amanhã. Seja bem-vindo à família, Mario.
...
Halloween em Chamas
De volta a Los Angeles, em outubro de 1965, o clima mudou. As vitrines das livrarias The Last Bookstore e Rizzoli em Nova York foram tomadas por uma imagem perturbadora: a grade cromada de um Plymouth Fury 1958 que parecia um sorriso malévolo sob luzes vermelhas.
“CHRISTINE: O Pesadelo Americano em Quatro Rodas”, diziam os cartazes.
Leo Stone escolhera o Halloween estrategicamente para o lançamento de seu terceiro livro. Enquanto os críticos ainda discutiam a "vulgaridade comercial" de Jaws, o público jovem abraçou Christine como um hino de rebeldia. O livro esgotou sua primeira tiragem de cem mil cópias em apenas três dias. A General Motors tentou um processo por difamação, alegando que retratar um carro como um assassino sobrenatural prejudicava a indústria, mas a publicidade negativa só fez as vendas dispararem.
Leo observava os números de sua varanda. O Mustang prata estava estacionado na entrada, mas ele passava cada vez mais tempo dentro da Plymouth vermelha, datilografando as primeiras notas sobre um novo projeto: "Slam Dunk", o quadrinho de basquete que ele levaria para a Charlton no próximo mês.
...
O Milagre de Natal
Dezembro de 1965 chegou com uma tempestade de neve em Nova York e uma tempestade de lágrimas em Hollywood.
A estreia de Love Story no Grauman's Chinese Theatre foi o evento do ano. Leo Stone caminhou pelo tapete vermelho ladeado por Ali MacGraw e Ryan O'Neal. O público esperava um melodrama comum, mas a edição de Leo — rápida, seca e emocionalmente devastadora — pegou a América de surpresa.
Quando as luzes se acenderam após o funeral de Jenny, o silêncio era absoluto. Então, o som de soluços inundou a sala. Lew Wasserman, sentado ao lado de Leo, limpou as lentes de seus óculos pretos.
— Você conseguiu, Stone — sussurrou o Zeus de Hollywood. — Eles estão chorando. E o que é pior... eles vão voltar amanhã para chorar de novo.
— Eles não estão chorando por Jenny, Lew — Leo respondeu, com os olhos fixos na tela onde os créditos subiam: Produzido por LEO STONE. — Eles estão chorando porque acabaram de perceber que Hollywood nunca mais será a mesma.
Leo olhou para o relógio. 1966 estava batendo à porta. Robert Evans seria contratado pela Paramount em poucos meses. Mas Leo Stone já havia roubado as jóias da coroa. O tubarão estava na água, a Plymouth estava na garagem, e o Padrinho estava em sua folha de pagamento.
O ar condicionado da Torre Negra da MCA estava regulado para dezoito graus, mas a tensão na sala de reuniões de Lew Wasserman era suficiente para derreter o gelo nos copos de cristal. Leo Stone estava sentado na ponta da mesa, examinando as provas de figurino para a adaptação cinematográfica de Love Story. Ele não estava apenas agindo como o autor; ele era o arquiteto do "Talent Packaging" que ditaria as regras do próximo Oscar.
— Stone, você é persistente, mas isso é um erro — disse Arthur Hiller, o diretor que Leo insistira em contratar para o projeto. — A Universal quer uma estrela consagrada para o papel de Jenny. Estão falando em Natalie Wood. Ela tem o nome, ela tem o peso.
Leo Stone soltou uma nuvem de fumaça de seu Lucky Strike e olhou para Hiller com um cinismo que fez o diretor desviar o olhar.
— Natalie Wood é o passado, Arthur. Eu quero o futuro. E o futuro tem um rosto que ninguém no cinema viu ainda. — Leo deslizou uma fotografia em preto e branco sobre a mesa. — O nome dela é Ali MacGraw. Ela é assistente da Diana Vreeland na Harper’s Bazaar. Nunca atuou, mas ela é Jenny Cavilleri.
Wasserman, observando silenciosamente atrás de seus óculos de aro preto, pegou a foto.
— Uma modelo? Stone, você está apostando dez milhões de dólares em uma garota que organiza cabides em Manhattan?
— Estou apostando na autenticidade, Lew. O público jovem está cansado de atrizes de trinta anos fingindo ser universitárias. Ali tem o brilho. E para Oliver Barrett IV, eu quero o garoto de Peyton Place, Ryan O'Neal. Ele tem a raiva contida e a mandíbula que o público vai querer ver chorando no Natal.
Leo sabia que a química entre os dois seria o combustível que transformaria Love Story em um fenômeno de bilheteria global, superando até mesmo The Sound of Music em rentabilidade líquida.
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A Caçada ao Padrinho
Enquanto a Universal se preparava para levar a equipe de filmagem para o frio de Boston em julho, a mente de Leo Stone já estava em outro lugar. Ele estava no aeroporto de LAX, prestes a embarcar para Nova York. Norman Brokaw o acompanhava, visivelmente intrigado.
— Stone, por que estamos indo para Manhattan no meio do verão? Você tem uma editora para gerenciar em Connecticut e um filme entrando em produção.
— Há um homem em Nova York que está prestes a desistir, Norman. E se ele desistir, Hollywood perde a sua alma — Leo disse, olhando para as nuvens pela janela do Boeing 707.
Leo sabia exatamente onde encontrar Mario Puzo. Em 1965, Puzo era um escritor de quarenta e cinco anos, exausto, trabalhando para revistas masculinas baratas da Magazine Management Company. Ele acabara de publicar The Fortunate Pilgrim, que recebeu ótimas críticas, mas vendas desastrosas. Puzo estava devendo vinte mil dólares para agiotas e casas de apostas, e sua próxima ideia — um livro sobre a máfia — era seu último ato de desespero.
Eles encontraram Puzo em um café esfumaçado perto da 42nd Street. O autor parecia uma sombra de si mesmo, com migalhas de rosquinha na camisa e olhos pesados de quem não dormia há décadas.
— Sr. Puzo — Leo disse, sentando-se à mesa sem ser convidado. — Meu nome é Leo Stone. Eu escrevi o livro sobre o tubarão que você deve ter visto nas vitrines.
Puzo levantou os olhos, surpreso pela audácia do jovem.
— Stone? O garoto de ouro da Universal? O que você quer com um homem que escreve sobre viúvas imigrantes e não vende nem cinco mil cópias?
— Eu quero o que você tem na sua gaveta, Mario. Eu sei que você está trabalhando em algo chamado Mafia. Eu sei que você precisa de dinheiro para pagar os agiotas e levar seus cinco filhos para a Europa.
Puzo travou. Ele não contara a ninguém sobre o título provisório ou sobre a extensão de suas dívidas.
— Como você...
— Isso não importa. O que importa é que Robert Evans ainda não é o chefe da Paramount, e o Sr. Wasserman me deu autoridade para buscar novas Propriedades Intelectuais. — Leo deslizou um envelope pardo sobre a mesa. — Aqui estão vinte mil dólares em dinheiro. Sem perguntas. Isso limpa sua ficha com os agiotas hoje mesmo.
Puzo olhou para o envelope com uma fome quase animal.
— E em troca?
— Eu quero a opção cinematográfica exclusiva para a Stone Productions. E quero que você mude o título. Mafia é genérico demais. Chame de "The Godfather". Escreva-o com foco na família, na tragédia grega, não apenas na violência. Faça de Vito Corleone um rei, não um bandido.
Puzo pegou o envelope. Suas mãos tremiam.
— Por que você está fazendo isso, Stone? Você poderia esperar eu terminar e comprar por menos.
— Porque eu já vi o sucesso que este livro vai ser, Mario. E eu não quero que você o escreva com pressa. Tire três anos. Faça uma obra-prima. — Leo levantou-se, ajeitando o paletó. — Norman cuidará dos papéis da William Morris amanhã. Seja bem-vindo à família, Mario.
...
Halloween em Chamas
De volta a Los Angeles, em outubro de 1965, o clima mudou. As vitrines das livrarias The Last Bookstore e Rizzoli em Nova York foram tomadas por uma imagem perturbadora: a grade cromada de um Plymouth Fury 1958 que parecia um sorriso malévolo sob luzes vermelhas.
“CHRISTINE: O Pesadelo Americano em Quatro Rodas”, diziam os cartazes.
Leo Stone escolhera o Halloween estrategicamente para o lançamento de seu terceiro livro. Enquanto os críticos ainda discutiam a "vulgaridade comercial" de Jaws, o público jovem abraçou Christine como um hino de rebeldia. O livro esgotou sua primeira tiragem de cem mil cópias em apenas três dias. A General Motors tentou um processo por difamação, alegando que retratar um carro como um assassino sobrenatural prejudicava a indústria, mas a publicidade negativa só fez as vendas dispararem.
Leo observava os números de sua varanda. O Mustang prata estava estacionado na entrada, mas ele passava cada vez mais tempo dentro da Plymouth vermelha, datilografando as primeiras notas sobre um novo projeto: "Slam Dunk", o quadrinho de basquete que ele levaria para a Charlton no próximo mês.
...
O Milagre de Natal
Dezembro de 1965 chegou com uma tempestade de neve em Nova York e uma tempestade de lágrimas em Hollywood.
A estreia de Love Story no Grauman's Chinese Theatre foi o evento do ano. Leo Stone caminhou pelo tapete vermelho ladeado por Ali MacGraw e Ryan O'Neal. O público esperava um melodrama comum, mas a edição de Leo — rápida, seca e emocionalmente devastadora — pegou a América de surpresa.
Quando as luzes se acenderam após o funeral de Jenny, o silêncio era absoluto. Então, o som de soluços inundou a sala. Lew Wasserman, sentado ao lado de Leo, limpou as lentes de seus óculos pretos.
— Você conseguiu, Stone — sussurrou o Zeus de Hollywood. — Eles estão chorando. E o que é pior... eles vão voltar amanhã para chorar de novo.
— Eles não estão chorando por Jenny, Lew — Leo respondeu, com os olhos fixos na tela onde os créditos subiam: Produzido por LEO STONE. — Eles estão chorando porque acabaram de perceber que Hollywood nunca mais será a mesma.
Leo olhou para o relógio. 1966 estava batendo à porta. Robert Evans seria contratado pela Paramount em poucos meses. Mas Leo Stone já havia roubado as jóias da coroa. O tubarão estava na água, a Plymouth estava na garagem, e o Padrinho estava em sua folha de pagamento.
