Cherreads

Chapter 1 - Prólogo Real inusitado

Era mais um dia normal. Sons de marchas fortes contra o chão, o som de conversas constantes, o vento suave que sopra, o calor do sol, o peso da armadura e da espada e o maior deles: a responsabilidade de ser um Paladino.

Esse dia normal se passava enquanto eu caminhava pelo comércio frente ao castelo.

As pessoas tentavam vender de uma forma desesperada, já que nessa era que nascemos, uma guerra mundial havia estourado.

Alguns cidadãos me olhavam com diversas reações: algumas com ódio, outras com esperança, outras eu percebia que a fé se esvaia, assim como vidas eram retiradas nesse mundo...

—Ei, Tomoe!

Depois de ouvir esse grito, senti um braço passar pelos meus ombros me puxando para ficar próximo. Quando olhei, era Shin. Um outro paladino assim como eu, o homem tinha uma armadura idêntica a que eu usava, portava sua espada na cintura e era forte. Mesmo com o capacete, seu tom animado denunciava seu sorriso através da armadura.

—Oi, Shin.

O cumprimentei com meu tom calmo de sempre, ele andava próximo de mim, era estranho tanta intimidade para dois guerreiros que saem e entram dia após dia do campo de batalha.

—Ei melhora esse ânimo, soube que eu e você recebemos uma missão diretamente do rei!

Parei de andar, surpreso com o anúncio dele. O rei apenas escolhia veteranos de guerra, pessoas acostumadas com o tom vermelho da morte, saber que fomos selecionados... Realmente era uma surpresa.

—Diretamente do rei? De onde tirou isso? Está tentando me enganar de novo?

Tive que perguntar, eu e ele não éramos tão experientes nisso, além de sermos jovens, eu só tendo 19 anos e Shin com seus 20.

—Por que eu mentiria pra você, amigo? Estou falando muito sério!

Respondeu ele gesticulando com as mãos, observava com atenção seus movimentos, eu sei que ele não estava mentindo, porém o choque ainda percorria meu corpo.

—Bem se você diz, então vamos ao encontro do rei.

Cedi concordando. E lá fomos nós em direção ao castelo. Ele de longe é magnífico: com torres altas, paredes brancas, detalhes em dourados e a bandeira do nosso reino, além de ser uma fortaleza por completo, tendo diversos cavaleiros preparados para qualquer situação.

Shin colocou as mãos na cintura, virou a cabeça na minha direção e convidava-me.

—Eae, Tomoe. Depois da missão, quer encher a cara?— ele era um viciado em festas e coisas do tipo que tinham a ver com "Liberdade".

—Cara, você já tem esposa e um filho, precisa parar com isso.

Depois da minha recusa e da breve "bronca", o cavaleiro abaixou a cabeça e soltou os braços numa pose triste, já consigo imaginar sua cara de frustração.

—Você é meu melhor amigo, deveria me apoiar!

Enquanto andava naquela posição triste, reclamava comigo, ele dizia que eu era "chato" e "sem liberdade". A verdade que sempre acompanhei ele pelas suas fugas do trabalho, Shin era o motivo dos dias serem leves, mesmo com o fato de que a pouco quilómetros de nós, um rio de sangue se formava... É um contraste cruel.

Me aproximei dele, e com um toque leve no seu ombro esquerdo, disse:

—Anime-se, com o dinheiro da missão do rei, vai poder comprar brinquedos pro seu filho e roupas novas pra sua esposa.

O paladino ajustou sua postura, levantando a cabeça e endireitando os braços.

Em um tom firme e determinado, concordou.

—Tem razão, vamos cumprir essa bagaça!

E continuamos seguindo nosso rumo, rua após rua as pessoas abriam espaço para que passarmos, nosso fardo era pesado, já que podemos trazer a paz ou a destruição. Ser um paladino é realmente uma praga, mas na guerra até maldições são necessárias.

Na frente do palácio real havia Uma ponte maciça se estendia sobre o fosso profundo que circundava o palácio. As águas eram escuras e silenciosas. Diziam as más línguas que o rei reservava aquele abismo para os traidores da coroa.

— Meio bizarro, né, Tomoe? — comentou Shin, a voz ecoando contra as pedras enquanto atravessávamos

—Esse lugar não é para nós de baixo escalão... É um luxo estar aqui— respondi calmo. Ele se virou para mim com uma postura meio irritada, as vezes era engraçado.

Os portões de madeira com detalhes em ouro se abriram elegantemente para nós, lá dentro havia um belo jardim com as flores mais bonitas que dava para imaginar.

Algumas execuções aconteciam no palácio, os detentos chamavam esse belo lugar de purgatório, as flores eram só uma ilusão para disfarçar a morte.

Nessa era, as flores representavam dor ou amor, estranho um objeto ter dois significados tão opostos, distintos e complexos...

—É bem bonito.

Dizia Shin, andávamos no meio daquele jardim com um pouco de nervosismo, mas sempre de cabeça para cima.

—Auto lá, quem pisa entrar na morada do rei?!

As portas para o castelo tinham 4 guardas reais com lanças, um deles gritava enquanto os outros 3 se posicionaram com as pontas da lâmina apontadas diretamente para nós.

—Calma lá camarada, somos da missão de escolta real!

Shin tirou um pergaminho dizendo isso, os guardas abaixaram suas armas, abriram as portas e pediram desculpas. E mesmo esperando luxo, o castelo consegue surpreender a cada segundo a mais:

Nossa passagem era um tapete vermelho limpo e perfeitamente alinhado no chão, colunas de mármore e quartzo dos dois lados dos corredores, tochas iluminando em apoios que pareciam ser cristais, o teto tinha belos desenhos ilustrados de reis, rainhas, príncipes e princesas. Tropeçamos várias vezes olhando para o teto.

—Lindão né? Acho que só uma dessas tochas seria o suficiente para viver uma vida boa.

Assobiava Shin e elogiava animadamente, olhando os desenhos. A cada passo, uma pressão poderosa era sentida por nós, a sala do rei a poucos metros, com a presença dos maiores nobres dos reinos.

—Pronto?

Perguntei parado a frente da porta do salão real. O paladino virou o rosto para mim, deu um tapa nas minhas costas confiante.

—Vamos conseguir, terminar essa missão e encher a cara!

Era bom ver a animação dele, mas pude sentir o nervosismo através da sua luva de metal. Ambos empurramos as portas principais e entramos.

Lá dentro era extravagante como o resto do lugar, mas o diferencial era dos lados e no centro...

Na esquerda e na direita, no alto, tinham ministros, nobres, cavaleiros e todo tipo de gente importante no segundo andar do lugar, nos encarando como vermes.

No fundo da sala, tinham cinco degraus banhados a ouro, um trono que parecia ser feito de diamantes, era belo e imponente, como se toda pedra preciosa fosse feita só para aquele trono...

Assentado nele estava o grande e poderoso rei...

Nos seus dedos, anéis de ouro e rubi, na sua cabeça uma coroa igualmente luxuosa como seu assento e acessórios, em seu rosto a barba mais chamativa e limpa que já vi, roupas feitas da mais branca e pura lã, com detalhes em amarelo e vermelho, como se deuses usassem seu poder para fazer aquele manto tão bonito...

Ergueu-se a personificação do domínio e deu passos até nós, eu e Shin instintivamente nos ajoelhamos sobre um joelho e abaixamos a cabeça.

—Bem vindos paladinos, agradeço a coragem que tiveram para aceitar essa missão.

Agradecia ele com sua voz grossa, enquanto gesticulava com uma mão, movimentos firmes e imponentes, realmente aquela presença não parecia ser de um humano.

—Por favor, gritem seus nomes de guerra para mim.

Ordenou o rei, então ambos dissemos alto, claro e hesitante:

—Tomoe, Senhor!

—Zoku, Senhor!

Primeiro disse eu e depois Shin, que era nomeado como Zoku no campo de batalha. O homem levantou uma sombrancelha, segurou as mãos atrás da costas e disse:

—Muito bem, a capital onde estamos é o alvo principal da guerra, eu posso me virar mas não posso proteger os outros. Ambos vão escoltar minha filha... Margaret!

Gritou o nome da garota, atrás de nós as portas abriram em um estalo alto, de lá ouvimos passos suaves e calmos, seu barulho ecoava pelo salão silencioso, até ser quebrado por alguns murmúrios de nobres no alto. A princesa parou atrás de mim e de Shin, ela tinha um cheiro forte de jasmim e uma presença autoritária, não tanto quanto o rei, mas era comparável.

—Sim, meu pai.

Disse ela com sua voz calma e doce. Pelo som, ela devia ser mais nova que eu, a voz parecia um som de uma harpa, tão bonita que provavelmente os anjos no céu dançavam só de ouvir ela.

Eu olhei para meu amigo de canto de olho por debaixo do capacete, ele transmitia um pouco de nervosismo, enquanto eu tentava parecer calmo.

—Bem vinda querida, esses dois serão responsáveis por escoltar você.

Anunciou ele, a garota andou até nossa frente, pude ver que a barra do seu vestido era de uma cor de rosa com detalhes brancos, uma ceda tão fina e delicada... Em seus pés, sapatilhas decoradas com esmeraldas, o cheiro se intensificava a nossa frente. Paladinos como nós não temos permissão para tocar na realeza, muito menos olhar diretamente nos olhos. O preço é a própria vida.

—Quais são os seus nomes?

Perguntava ela, Shin foi o primeiro a responder.

—Zoku, senhorita!

Eu não pude ver a reação dela, mas pelo silêncio... Foi algo parecido com decepção.

—E você?

Disse ela se virando para mim, com uma voz cortante e seca.

—Tomoe, senhorita!

Quando a princesa ouviu minha resposta, o silêncio dela foi menos pesado... Não entendi o por que, mas diferente da decepção de Zoku, o que eu senti foi diferente, talvez... Esperança?

—Paladinos, vocês devem escoltar minha filha até o interior onde minha esposa está escondida, nessa missão vocês terão a permissão para tocar nela, mas apenas em cenários muitos perigosos, entendido? Quando ela chegar, será verificada por completo para sabermos que não sofreu nenhum "acidente" no caminho. Entendido?

Explicou o rei em um tom forte e ameaçador, ambos concordamos sem se quer levantar a cabeça.

—Muito bem, vocês irão partir amanhã antes do sol nascer, se preparem... Nenhuma falha será aceita... Dispensados.

Explicou o rei uma última vez, e saímos imediatamente.

—Ufa, tenebroso— bufou Shin, um pouco ofegante e se livrando do nervosismo.

—É uma experiência nova mesmo— concordei agachando de cócoras.

Depois de um tempo processando o que aconteceu e tentando acalmar o nervosismo, meu amigo vira-se para mim e diz:

—Eae quer dormir lá em casa? Meu pequeno sente falta do titio.

Levantei e disse:

—Agradeço, mas preciso de uma noite calma... Foi mal.

Ele abaixou a cabeça, cruzou os braços, se aproximou e não parecia triste ou impressionado, apenas falou:

—Eu já esperava por essa, eu te convidei por educação, agora vai por obrigação!

Depois agarrou meu braço e me puxou. Eu reclamei sendo carregado, dizendo:

—Você não vai desistir mesmo né... Que saco!

Ele riu e partimos.

Na sala do trono:

O rei ainda estava parado no mesmo lugar, Margaret já havia saído. Um nobre se aproximou dele e perguntava com medo:

—Senhor, perdoe-me por tomar seu tempo, mas pode me dizer por que escolheu esses dois?

O homem ficou um tempo em silêncio, virou, começou a andar em direção ao trono e explicou:

—Nosso reino tem 6 divisões de guerra sendo 3 delas de baixo escalão e 3 de alto escalão. As 3 mais baixas tem pelo menos 40 homens em cada uma, e as 3 mais altas tem pelo menos 20 em cada, esse números são mínimos. Essa missão a princípio era para ser executada pelos dois guerreiros mais fortes do reino, mas a Margaret e a minha esposa recusaram essa missão, a rainha propôs uma ideia: abrir uma inscrição para escoltar minha filha. Anúncios foram espalhados por todo reino, com os riscos e as recompensas... De todos esses números que eu disse, sabe quantos se inscreveram?

O rei parou no meio do caminho enquanto o nobre o seguia, o homem hesitante perguntou:

—Quantos?

O líder do reino mostrou a mão sinalizando o número 2.

O nobre arregalou os olhos assustado e disse meio alto:

—Dois? Apenas isso? Não me diga que foram eles?!

O rei se sentou no trono e continuou:

—Sim apenas eles, Tomoe e Zoku. Eles são da terceira divisão de baixo escalão, a divisão mais fraca entre as 6. Porém algo me deixou curioso... Eles são os mais fortes dessa divisão, e se recusam a subir de patarmar.

O nobre pálido e tremendo de choque disse:

—O senhor selecionou os mais fortes dos mais fracos para essa missão? A missão que ninguém do alto escalão recusou?

O rei apoiou a cabeça em uma mão e voltou a explicar:

—Essa não foi minha primeira ideia, eu apresentei todos os soldados do alto nível para a princesa, mas ela recusou todos. Quando vi a lista de inscrição, também tive uma reação de choque, quando disse para a Margaret que apenas dois haviam se candidatado, ela ficou neutra como um céu nublado. Até eu anunciar os nomes de guerra daqueles garotos... Zoku e Tomoe.

A Margaret mudou a expressão e sorriu... Eu nunca vi aquela garota sorrir daquele jeito, mesmo que tenha sido razo, foi marcante para mim, como rei e pai. Ela aceitou sem pensar duas vezes, eu confio na minha filha e penso que ela sabe algo sobre aqueles dois que eu não sei... Além dela pedir permissão para que eles pudessem a tocar e a olhar.

Todos no local se surpreenderam, os ministros, os ricos, os guardas... Tocar na realeza era o pior crime que alguém poderia fazer, e a princesa pedir para isso acontecer era revolucionário.

Um murmúrio alto percorreu o salão inteiro, murmúrios como:

"Isso é loucura!"

"A princesa está pensando o que?"

"Os mais fortes dos mais fracos? Isso não é bom!"

O rei calmamente levantou a mão, e o barulho sumiu instantaneamente.

—Como eu disse, eu confio na minha filha. Depois da missão, vou interrogar aqueles dois para saber do passado, e questionar a ela também... Além do mais impressionante de tudo isso não ser esses pedidos insanos.

Um guarda se aproximou hesitante, ajoelhou e disse com medo:

—Será que pode nos dizer o "mais impressionante"?

O rei concordou e disse, e de novo, um choque correu pelo salão, um diferente e mais pesado... O que a princesa havia pedido era assustador para o império.

O rei em meio ao caos se manteve firme, mantendo a confiança cega em Margaret.

Conosco:

Andamos até a casa de Shin e fomos recebidos por sua esposa e seu filho de 2 anos.

—Bem vindo, querido!

Disse sua mulher, correndo em sua direção e o abraçando amorosamente.

—Papai!

Dessa vez foi seu filho que correu desajeitado até chegar a ela, meu amigo riu, segurou o garoto nos braços e disse:

—É bom estar em casa, olha que eu trouxe!

Apontou para mim e colocou seu filho em meu colo.

—Tio!

Gritou ele animado enquanto me abraçava.

—É um prazer em ver você, Tomoe!

Disse Sarah, a esposa de Shin.

—O prazer é todo meu, obrigado por me receberem.

O filho de Shin tinha puxado sua aparência, com cabelos negros e olhos castanhos, já Sarah tinha um cabelo castanho claro e olhos negros... Eles eram opostos em aparência, os opostos se atraem nunca fez tanto sentido.

Ela soltou o marido e disse sorrindo com sua voz suave:

—Certo, vou fazer um banquete para nós, mas antes vocês vão tomar banho e tirar essas armaduras!

Shin riu, me puxou novamente, me levando para o banheiro e dizendo:

—A mulher que manda, vamo lá!

Eu cedi, não posso fazer muita coisa mesmo... Até que chegamos no banheiro, era um pouco largo com uma tina de madeira enorme com água aquecida dentro, ao lado algumas toalhas para nós secar.

Shin retirou seu capacete e revelou sua aparência finalmente: tendo uma pele clara, cabelos negros lisos amarrados em um coque alto, olhos castanhos.

—Vai tomar banho de armadura? Tira isso ae, tá com vergonha? Não é a primeira vez que tomamos banho.

Disse ele, finalmente pude ver seu sorriso naquele dia.

—Tu é chato.

Reclamei tirando o capacete, balancei um pouco a cabeça e cocei meu cabelo, depois tirei o resto de a armadura e a espada, também retirei minhas roupas que eu usava em baixo da armadura, uma cota de malha de pouca qualidade.

Agora completamente nu, andei até a tina e vi meu rosto... Eu tenho cabelos negros com as pontas esverdeadas e lisos, com os olhos também verdes.

Shin correu e pulou, espalhando água quente pelo banheiro todo.

—Bora Tomoe, tá esperando o que?

Exclamou animado, eu suspirei e entrei. Começamos a nos lavar calmamente e em um silêncio até que tranquilo.

Até que foi quebrado pelo meu amigo:

—Ai Tomoe, não podemos te chamar pelo nome real nem dentro de casa? Vai manter seu apelido de guerra até quando?

Molhando o cabelo, me virei e respondi calmamente:

—Eu não tenho o luxo de ser chamado pelo nome, sou um paladino não um cidadão normal... Prefiro esse apelido.

Shin fez uma expressão meio brava e confusa.

—Mas teu nome é tão legal, tem um significado imponente... E sinceramente, eu gosto mais dele do que seu nome de guerreiro e como assim não é normal?

Exclamou mais uma vez, eu sentei na tina aproveitando a água quente e expliquei:

—Pessoas normais tem famílias e amigos, eu só tenho tu e a Sarah de amizade, sem família, moro sozinho e raramente volto para casa. Já conversamos sobre isso, e tu insiste nisso né? Sai dessa!

Ele também se sentou, com uma face derrotada e desistiu dessa conversa.

Um tempo após isso, saímos, nos secamos e vestimos roupas simples e finas, uma calça e uma manga comprida preta, um pijama para comer e logo dormir.

Saímos do banheiro e Shin andou até a esposa, ela largou o que estava fazendo para o abraçar e dar um beijo apaixonado, Nichi seu filho correu para o abraço em família.

Eu fiquei olhando de longe com uma dor familiar no peito... Eu sou um homem que busca o sentido da vida, ou se ela tem um sentido, qual a importância de viver?

Elas são arrancadas todos os dias, e todos os dias chega alguém diferente, se ela é tão instável, qual o sentido dela? Se sempre tem gente vindo e voltando, ela só é algo banal? Como arrancar um mato do chão?

Ou será que eu só não dei uma importância para a minha própria vida por que não tenho essa felicidade que o Shin tem?

Os abraços, beijos, risadas... Será que a vida significa isso?

—Ei, Tomoe, venha comer!

Enquanto eu refletia, Sarah me chamava, já a família toda na mesa... Mas uma pergunta sempre ecoava na minha mente:

"Por que nasci?"

Comemos e conversamos tranquilamente, risos da família do meu amigo eram satisfatórios, para quem ouvia sempre gritos de agonia e dor, risada é bom, muito bom.

Depois de jantar, conversamos mais um pouco e fomos dormir.

—Boa noite, tio Tomoe!

Disse Nichi, sorrindo, me abraçando e dizendo alegre. Eu olhei com semblante neutro, abaixei, toquei sua cabeça e disse:

—Boa noite, toma conta do seu pai durante a noite tá bom? Quando éramos crianças, ele morria de medo do escuro.

Shin fez uma cara irritado, se aproximou, puxou seu filho e desmentiu dizendo:

—É mentira filhão, papai te medo de nada!

E sussurrou na minha direção:

—Idiota, você disse que nunca ia contar!

E de fundo, Sarah ria da cena engraçada e leve, após alguns minutos, fomos dormir para se preparar pro dia seguinte, mais um dia onde o sol ia nascer vermelho, e o barulho do galo será substituído por agonia e sofrimento.

E umas 3 horas de sono depois:

—Tomoe levanta, hora de partir.

Shin me acordou, sentei esfregando os olhos ainda com sono.

—Que hora são?

Questionei me levantando.

—São 3 da manhã, fomos dormir meio tarde, temos 2 horas pra comer, se arrumar e partir para o local de encontro.

Respondeu meu amigo, após isso foi direto para o banheiro com ele, vesti minha armadura, coloquei minha katana na cintura, segurei meu capacete nas mãos e me preparei para sair, Shin me segurou pelo ombro e disse:

—Não vai comer?

Parei meio pensativo, observei por cima do ombro dizendo:

—Tá tudo bem, vai se despedir da Sarah e do seu filho, eu aguardo lá fora.

E saí. Coloquei meu capacete e esperei a frente da casa, o homem demorou um pouco para se despedir, até que gritei:

—Shin eu vou na frente, espero você no ponto de encontro!

Não recebi resposta, e parti andando até o portão principal.

As ruas estavam vazias, apenas o som das árvores balançando era possível ouvir, a brisa fria, tão fria que era possível sentir através da armadura, o céu ainda não clareou, aquelas ruas pouco iluminadas por algumas tochas nas casas, era estranho, eu sentia um cala frio sabendo da importância da missão... Mas algo a mais cutucava meu peito, era as dúvidas da noite passada? Não... Medo? Não...

Uma facada nas costas?

Acho que tô pensando de mais, que droga.

Caminhando mais um pouco, comecei a ouvir barulhos de cavalos, pessoas conversando, coisa sendo carregadas...

Até que avistei o portão principal cheio de comerciantes e nômades pronto para partirem. Pude ver a nossa carroça estacionada com um cavalo de lado, uma carroça bem comum para não chamar a atenção... O rei é esperto.

Me aproximei e comecei a acariciar o bixo, ele era bem bonito, de pele e pelos pretos, parecia ser bem treinado e cuidado.

—Chegou cedo... Posso assumir que é o Paladino Tomoe, não é?

Disse aquela voz calma e imponente, quando me virei não podia ser alguém diferente: a princesa.

Ela estava vestida de uma forma bem diferente de quando a vi ontem. Com uma capa sobre a cabeça e os ombros, uma máscara tampando seu rosto e uma roupa normal de camponesa.

Ela parou a minha frente e desviei meu olhar, olhando para outra direção, cruzando os braços ela disse:

—Um paladino que não se curva a uma princesa?

—A missão é secreta quanto menos pessoas souberem melhor, eles verem um paladino se curvar para uma suposta camponesa levanta suspeitas.

Respondi calmo. Ela se aproximou mais um pouco, me fazendo recuar um passo.

—Você segue bem as regras... Me surpreende cada vez mais!

Disse ela com uma voz calma... Um elogio sincero? Cada vez mais? E espera...

—Como sabia que eu era o Tomoe? Sendo que temos todos a mesma armadura?

Questionei curioso me virando de costas.

—Sua Katana é única, vermelha escura com desenhos de um dragão preto pelo cabo, uma bainha escura que se camufla na noite e o cabo dela está mais inclinada do que os outros paladinos usam, da pra reparar em você até de longe, Tomoe.

Respondeu descrevendo minha arma perfeitamente, ela tinha uma visão bem apurada... Mas eu sentia algo a mais perto dela, como se os olhos da garota vissem minha alma, era desconfortável.

—E cadê o outro paladino?

Perguntou ela.

—Me desculpa senhorita, meu parceiro se atrasou por estar se despedindo da família.

Respondi ainda de costas.

—Entendi... E me chame pelo nome, é suspeito um paladino chamar uma camponesa de senhorita.

Ordenou ela calmamente, não tinha arrogância ou superioridade na voz dela, bem diferente do rei.

—Certo, Margaret.

Respondi obedecendo firmemente, me aproximei do cavalo e o acariciei mais uma vez. Ela também chegou próxima, tocou no animal e disse:

—Gosta de animais?

Eu estranhei a tentativa de conversa, mas não posso ser ignorante, mesmo fingindo que ela não é ela.

—Não sei.

Ela fez um barulho estranho... Uma risada? Não, eu devo estar com tanto sono que imagino coisas...

—Tomoe, desculpa o atraso!

Gritou Shin correndo na minha direção e acenando, até parar na minha frente, olhar para a princesa e questionar:

—Quem é essa?

Eu olhei para ele calmamente e disse:

—É a princesa, está disfarçada.

O segundo paladino deu uma recuada com uma passo para trás de tanta surpresa, desviou o olhar e começou a se abaixar, porém eu o segurei e sussurrei:

—Um paladino só se curva para a realeza, agora ela é só uma camponesa, certo?

Shin entendeu logo, ajeitou a postura e desculpou-se:

—Perdão princesa, não sabia.

Eu o cutuquei com o cotovelo e disse:

—Já disse que ela é uma camponesa, chame-a pelo nome, imbecil.

Shin se tocou logo, olhamos para o horizonte e vimos o sol levemente começar a brilhar.

—Droga demoramos de mais, vamos!

Ordenou ela, concordamos e assumimos nossas posições: Shin a ajudando a entrar na carroça e ficando com ela e eu tomando conta do cavalo.

Eu suspirei fundo e murmurei para mim:

—Lá vamos nós então...

More Chapters