Cherreads

Chapter 3 - Chapter 3

Helena nunca acreditara em milagres.

Até a noite em que o amor da sua vida começou a morrer.

O hospital já não fazia promessas — apenas silêncio, bipes de máquinas e olhares evasivos. Os médicos usavam termos técnicos que, traduzidos para o coração, não significavam nada: terminal. Irreversível. Uma questão de tempo.

Ela estava grávida de seis meses.

Seu filho ainda nem havia nascido e já estava prestes a crescer sem pai.

Naquela madrugada, Helena voltou para casa com o desespero pulsando em suas veias. Acendeu velas com as mãos trêmulas, desenhou símbolos que mal compreendia e murmurou palavras arrancadas de livros antigos que jamais deveriam ter sido abertos.

Quando o ar ficou pesado e frio, ela soube que não estava mais sozinha.

A sombra tomou forma diante dela — alta, elegante, com olhos brilhando como brasas contidas. Um sorriso afiado brincava em seus lábios.

"Você me chamou", disse o demônio, com uma voz suave demais para algo que não pertencia a este mundo. "E chamadas como a sua sempre têm um preço alto."

"Quero que ele viva", implorou Helena. "Não quero que meu filho cresça sem pai."

O demônio inclinou ligeiramente a cabeça, demonstrando interesse.

"Podemos chegar a um acordo. Mas vou querer algo em troca."

"O quê?", perguntou ela, sentindo o coração acelerar.

Seu sorriso se alargou.

"Ainda estou decidindo."

O medo atravessou seu peito como uma lâmina.

"Você não pode tirar minha vida... nem a vida de ninguém que eu ame."

Houve um breve silêncio.

Então o demônio assentiu com a cabeça.

"Aceito."

O pacto foi selado com sangue.

O demônio desapareceu.

Helena estava nervosa, se perguntando se daria certo.

Horas depois, o telefone tocou.

O marido dela havia despertado do coma. Estava melhor. Estável. Vivo. O médico do outro lado da linha dissera que só poderia ser algum tipo de milagre divino, já que Samuel tinha menos de três por cento de chance de sobreviver.

Helena chorou de alegria... sem perceber que o preço ainda estava por vir.

TRÊS MESES DEPOIS...

Foi um dia mágico na vida de Helena e Samuel. Seu filho, Kael, acabara de nascer. Ele era um lindo menininho.

"Querida, vou à cafeteria do hospital comprar algo para nós, já volto", disse ele, dando-lhe um beijo na testa e saindo pela porta.

Sozinha no quarto, Helena embalava o filho nos braços, observando cada pequeno detalhe do seu rosto, quando algo diferente lhe chamou a atenção.

Uma marca avermelhada no bracinho do bebê — como uma cicatriz antiga demais para ter acabado de nascer. O símbolo parecia pulsar suavemente sob a pele.

Um arrepio percorreu sua espinha.

A cortina se movia sem que houvesse vento, pois a janela estava fechada.

O mesmo frio daquela noite em que ela fez um pacto com aquele demônio.

A brisa varreu o quarto... e Malrik, o demônio de três meses atrás, emergiu da sombra perto da janela, elegante como uma presença que nunca precisou pedir permissão para existir.

"Ele é lindo", comentou com um sorriso torto. "Sua obra-prima."

"O que você fez com meu filho?!" gritou Helena, apertando o bebê contra o peito.

"Nada que não estivesse no acordo." Seus olhos ardiam como brasas contidas. "Ele será chamado quando completar dezesseis anos. Para algo muito maior do que a realidade humana pode compreender."

"Não vou permitir!"

"Você já tem."

"Não vou deixar isso acontecer!"

Malrik inclinou-se até ficar à altura dos olhos dela.

"Você pode impedir isso. Matando-o."

Helena engasgou com um soluço.

"Mas se você fizer isso... seu marido morrerá. O pacto será quebrado."

Ela apertou ainda mais o recém-nascido nos braços.

"Como eu imaginava." Ele sorriu presunçosamente. "Te vejo daqui a dezesseis anos."

E ele se foi, deixando para trás uma Helena inconsolável.

DEZESSEIS ANOS DEPOIS...

Kael cresceu como qualquer outra criança.

Ele aprendeu a andar de bicicleta, caiu inúmeras vezes, machucou os joelhos, fez amigos na escola, adorava subir em árvores e odiava acordar cedo.

A marca em seu braço sempre esteve lá — apenas uma "marca de nascença", segundo os médicos.

Helena nunca se esqueceu.

Ela nunca dormia sem observá-lo respirar.

Ela nunca o deixou se afastar muito.

Ela nunca falou sobre aquela noite.

Na manhã em que Kael completou dezesseis anos, ele acordou com uma bandeja de café da manhã em sua cama.

"Feliz aniversário!" sorriu o pai, bagunçando seus cabelos.

"Vai ter uma festa hoje", anunciou ele. "Seus amigos virão mais tarde."

Quando o pai saiu do quarto, Helena permaneceu parada junto à porta.

Seu olhar era sério demais.

"Kael..." ela disse em voz baixa. "Hoje... não fale com estranhos. Não vá a lugar nenhum sozinho. Se ouvir algo estranho... não siga."

"Mãe..." ele riu nervosamente. "Está tudo bem?"

Ela assentiu com a cabeça, mas seus olhos diziam o contrário.

HORAS DEPOIS...

O quarto de Kael estava banhado pela luz quente do final da tarde. As cortinas balançavam suavemente com a brisa que entrava pela janela entreaberta. O cheiro de bolo vindo da cozinha se misturava com o aroma antigo da madeira da cabana. Tudo era familiar. Seguro.

Até que o ar ficou frio.

Não era um resfriado comum. Era um arrepio que percorria sua pele como um aviso primitivo — o mesmo tipo de sensação que precede um trovão ou um pesadelo.

"Kael..."

O sussurro veio do nada — e de todos os lugares ao mesmo tempo. Era como se vibrasse dentro de seus próprios ossos.

Ele ergueu o rosto, com o coração acelerado.

"Quem está aí?"

Silêncio.

Então, novamente:

"Vir."

A voz era baixa, arrastada, quase divertida. Não soava ameaçadora... mas também não soava humana.

Por um breve instante, Kael se lembrou do olhar estranho de sua mãe naquela manhã.

"Não fale com estranhos. Não siga vozes. Não vá sozinho."

Mas a curiosidade, ardendo como uma febre adolescente, falou mais alto.

Ele abriu a janela.

A floresta ao redor da cabana parecia diferente naquela tarde — mais densa, mais fechada, como se as árvores estivessem se inclinando para ouvir seus pensamentos. A luz do sol mal filtrava-se através do emaranhado de galhos.

A voz o guiou suavemente.

"Mais perto... isso mesmo... você está indo muito bem."

Até que ele viu.

Um brilho avermelhado pulsava sob um pequeno monte de terra recém-revolvida, como um coração enterrado batendo lentamente.

Kael ajoelhou-se, com as mãos trêmulas, e começou a empurrar a terra para o lado.

O metal surgiu como uma relíquia profana.

A lâmina era longa, curva, escura como obsidiana líquida, mas marcada por veios vermelhos brilhantes que pareciam se mover sob a superfície, como veias vivas. Runas antigas percorriam o cabo, gravadas de forma irregular, como cicatrizes esculpidas à força. O cabo estava quente — quente demais para algo que deveria ter sido enterrado.

Ao tocá-la, o mundo pareceu prender a respiração.

Uma pulsação percorreu seu corpo.

Seu sangue ferveu.

Seu coração disparava.

O ar ficou pesado.

A marca em seu braço começou a arder.

Quando ele arregaçou a manga, a cicatriz brilhou com o mesmo tom vermelho da lâmina, pulsando como se tivesse despertado de um sono profundo.

"O que é isto...?" ele sussurrou, aterrorizado e fascinado.

Então veio a dor.

Uma dor absurda e excruciante, como se algo estivesse dilacerando suas entranhas. Seus ossos pareciam estar se rearranjando. Seus músculos ardiam. Veias saltavam sob a pele. Ele não conseguia respirar.

Ele caiu no chão, gritando.

"KAEL!"

A voz de sua mãe ecoou pela floresta.

Helena saiu correndo de entre as árvores, com o rosto tomado pelo pânico.

Ao vê-lo se contorcendo no chão, ela correu até ele e se ajoelhou.

"Meu filho... meu amor... o que aconteceu?!"

Mas Kael já não conseguia enxergar direito. Sua visão estava turva, vermelha, distorcida. Um instinto desconhecido tomou conta dele — selvagem, agressivo, primitivo.

Quando sentiu alguém tocá-lo, ele reagiu.

O movimento foi rápido demais para ser percebido conscientemente.

A lâmina cortou o ar.

O impacto foi forte.

Quente.

Silencioso.

Os olhos de Helena se arregalaram.

"Ka... el..."

O vestido dela estava manchado de sangue.

O mundo de Kael desmoronou em um único segundo.

"MÃE— NÃO— NÃO!"

Ele largou a espada, tentando em vão estancar o ferimento, com as mãos trêmulas e cobertas de sangue.

Ela sorriu fracamente, tocando seu rosto.

"Não foi... sua culpa..."

Mas ambos sabiam que algumas coisas não podiam ser desfeitas.

"Vou ligar para o papai!" Kael morreu assustado e desesperado, correndo de volta para a cabana para pedir ajuda ao pai.

O ar esfriou novamente.

O mesmo arrepio de sempre percorreu a espinha de Helena.

O demônio Malrik apareceu lentamente, agachando-se ao lado dela, com um sorriso afiado nos lábios.

"Exatamente hoje, dezesseis anos. Sempre cumpro meus contratos."

Helena olhou fixamente para ele, com os olhos cheios de ódio e desespero.

"Você... mentiu..."

"Eu só disse que não o tiraria dos seus braços." Ele inclinou a cabeça, divertido. "Você mesma o deixou ir."

Ele se inclinou perto do ouvido dela:

"Se você não tivesse tentado impedir o destino dele... talvez isso não tivesse acontecido. Mas não se preocupe. Cuidaremos bem do menino. Ele agora é oficialmente... um de nós."

O demônio desapareceu.

Antes de desaparecer completamente, a última coisa que Helena viu foi seu filho correndo de volta em sua direção, chamando seu nome.

Helena foi levada para o hospital, mas não resistiu aos ferimentos.

Quando Samuel encontrou o corpo de sua esposa naquela tarde, nada foi como antes.

A casa ficou silenciosa demais.

As paredes pareciam guardar ecos.

Seu perfume nunca desapareceu.

Após a tragédia, Samuel trancou Kael em seu quarto por semanas — por medo, por dor, por não saber mais quem era seu próprio filho.

Ele guardava a espada trancada a sete chaves, para que nada de desastroso acontecesse ao seu filho novamente caso a espada retornasse às suas mãos.

Kael sequer teve permissão para comparecer ao funeral de sua própria mãe.

Ele sentiu a ausência da espada como uma abstinência física. Seu corpo ansiava por poder. Seus sonhos eram repletos de fogo, sangue e sussurros.

Até o dia em que perdeu o controle.

Seu pai tinha ido trazer-lhe comida, como fazia todos os dias, mas não o encontrou em lugar nenhum do quarto.

Mas quando ele olhou para cima, logo acima do batente da porta, lá estava Kael.

Ele estava pendurado no teto como uma criatura desconhecida, com os olhos completamente negros.

Samuel gritou quando aquele que um dia fora seu filho se atirou sobre ele.

Por um segundo, Kael quase o matou.

Mas então ele viu a moldura da foto ao lado da porta.

Uma foto dele com a mãe.

Algo de humano ainda existia dentro dele.

E então ele correu para bem longe da cabana.

Kael vagou sem rumo durante dias.

Sem água.

Sem comida.

Sem esperança.

Quando ele desmaiou, o mundo deixou de ser humano quando ele acordou.

O céu estava vermelho-escuro, rasgado por densas nuvens. O ar cheirava a enxofre e ferro. Torres de pedra negra erguiam-se como presas gigantes no horizonte.

Criaturas caminhavam nas sombras.

Alguns eram humanoides.

Outros nem tanto.

O chão parecia pulsar sob seus pés.

"Bem-vindo de volta, garoto."

O demônio sentou-se em uma pedra, cruzando as pernas calmamente.

"Onde... estou...?" murmurou Kael.

"O Reino de Varun." Malrik sorriu. "Seu verdadeiro berço."

"Eu não sou como você!"

"Ainda não", ele assentiu. "Mas você vai ser."

Seu olhar escureceu.

"A marca em seu braço é uma chave. A espada que você tocou é um fragmento do legado de Caim. Você carrega algo que poucos sobrevivem para suportar."

Kael engoliu em seco.

"E agora?"

O sorriso do demônio se alargou.

"Agora você aprende a sobreviver... antes que o que existe dentro de você o consuma por completo."

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