O homem estava chorando.
Chorando de verdade.
Não aquele choro dramático de gente tentando ganhar pena.
Era o choro feio.
Desesperado.
Nariz escorrendo.
Respiração falhando. Totalmente desesperado.
Era nojento de se ver..
Ruslan observou aquilo em silêncio enquanto descia os últimos degraus do porão.
O cheiro veio primeiro.
Sangue.
Suor.
Medo.
Ele já conhecia aquele cheiro.
Conhecia bem demais.
Algumas pessoas quebram rápido, pensou.
Outras demoram.
A lâmpada pendurada no teto balançava lentamente. Mal iluminando o ambiente.
A cadeira no centro do porão estava ocupada, por aquela coisa nojenta.
O homem estava patético estava amarrado nela
Mãos presas.
Pernas presas.
A camisa manchada de sangue. Boca estorada, olhos enchados..
Ruslan sabia, já tinham feito um ótimo espetáculo.
o homem ainda estava consciente. Por pouco.
Ruslan parou alguns passos atrás.
Observando.
Analisando.
olhou para o homem que estava se servindo de uma bebida do outro lado da sala.
Rurik.
Seu irmão mais novo.
ele era Grande.
Perigoso.
E completamente fora de controle.
Os punhos de Rurik estavam vermelhos.
Sangue nos nós dos dedos.
O peito subindo e descendo pesado.
Ruslan conhecia aquele olhar.
Raiva.
Vergonha.
Frustração.
E algo pior.
Medo.
Rurik estava com medo.
Não de lutar.
Não de matar.
Mas do que estava acontecendo.
Do que tinham feito com ele.
Ruslan odiava ver aquilo.
Porque Rurik sempre foi impulsivo.
Mas nunca foi estúpido.
Agora alguém tinha conseguido fazer ele parecer exatamente isso.
Um idiota bêbado que matou um homem num bar.
Perfeito para os jornais.
Perfeito para a polícia.
Perfeito para destruir tudo que eles construíram.
Ruslan entrou completamente no porão.
As botas ecoaram no concreto.
O homem amarrado levantou os olhos.
E o pânico aumentou. ver o medo nos olhos dele dez ruslan sentir uma leve satisfação. Ele gostava da fama que tinha. Alguns o chamvam de demônio. Bom.. ele não estva muito longe disso. Ruslan soltou um riso pelo nariz, sem de fato sorrir.
— Não… não… por favor…— implorou o homem.
Ruslan ignorou. Dirigiu-se diretamente ao irmão.
— Ele falou alguma coisa?
Folou com uma clama inquietante. Entediada até.
Rurik soltou uma risada seca, totalmentewem humor.
— Só chora, igual uma puta– falou com raiva e virou o copo de bebida na boca.
Foi em direção ao homem reduzido a nada.
Ele chutou a perna da cadeira.
O metal raspou no chão.
O homem gritou, choroso e desesperado
— EU JÁ FALEI TUDO!
Rurik virou para ele num estalo.
— Falou porra nenhuma–
Ruslan caminhou lentamente até à mesa velha.
Pegou um copo.
Serviu um pouco de vodca.
Observando.
Sempre observando.
Rurik está perdendo a cabeça, pensou.
Isso não ajuda.
Ele tomou um gole.
O álcool queimou a garganta.
A mente dele estava fria.
Sempre fria. Era assim que tinha de ser.sempre.
— Começa do início — disse Ruslan.
Rurik passou a mão pelo rosto.
Respiração pesada.
— Aquele filho da puta apareceu no bar.
O olhar dele voltou para o homem na cadeira.
Cheio de ódio.
— Esse merda estava lá.
O homem começou a balançar a cabeça. Desesperado.
— Eu não fiz nada!
Rurik avançou.
Agarrou o pescoço dele.
— Cala a boca, caralho.
Ruslan apoiou o quadril na mesa.
Assistindo a cena
continuou Rurik soltando o pescoço do homem com um empurrão bruto, ficando totamwnte em pé e olhando para Ruslan.
— O cara começa a me provocar. Você sabe que eu estava com a cabeça cheia por causa daquela vadia.– falou ele lebrando da mulher que o traiu.– o homem chegou do nada, eu já estava bêbado pra caralho. – passando a mão só sangue nos cabelos– porra, mal me lembro de ter dado uma facada nele, já estamos em uma rua fora do bar, merda. Quando dei por mim o cara ja estava todo esfaqueado o rosto irreconhecível. Fui eu, sei disso. Tenho lapsos. Mas a memoria ta lá.
Empurrão.
Insulto.
Outro empurrão.
A mandíbula dele se contraiu.
— Eu tava bêbado pra karalho – fez um barulho estalado xom a língua, Ele cuspiu as palavras.
Como se odiasse admitir.
Ruslan sabia que era verdade.
Rurik ficava estúpido quando bebia demais.
normalmente ele é muito cuidadoso com suas vítimas, meticulosamente.
—aquele filho da puta não parava — Rurik continuou.
— Me chamando.Me eempurrando me levando á porra do limite que já não existia.
Rindo, ele lembrava do incidente. O olhar dele ficou mais escuro.
— eu dei o que ele queria
O homem na cadeira começou a tossir, espirando sangue na própria roupa.
Ruslan falou o óbvio
— você deveria ter me chamado.
Rurik soltou um riso soprado.
— eu mal sabia falar meu próprio nome porra.
Ele começou a andar pelo porão.
Tenso. Tinha dado muito errado.
— E de repente aparecem testemunhas.— Falou de foma rápida e contínua –De repente a polícia já sabia de tudo. –respirava forte– os jornais já tinham manchete pronta.
Ele virou para Ruslan.
— o caralho que isso nãofoi armado.
Ruslan já sabia.
Desde o primeiro minuto.
Nada naquela história parecia natural.
Briga de bar acontece.
Mas aquilo?
Aquilo tinha roteiro.
E alguém escreveu.
Ruslan olhou para o homem que mao conseguia manter o pescoço parado
— Quem pagou você?–
O homem começou a chorar alto novamente
— Eu juro por Deus que—
Rurik deu um soco no estômago dele.
O ar saiu do homem num gemido sofrido e angustiado. O homem tossiu mais sangue.
— NÃO MENTE PRA MIM, PORRA.
Ruslan observava.
Pensando.
Analisando cada reação.
Cada movimento dos olhos.
O medo era real.
Mas também…
culpa.
Interessante.
Ruslan se aproximou.
Abaixou um pouco para ficar na altura dele.
— Vou perguntar uma única vez. –
A voz dele estava baixa.
Perigosa. Não se impotava nem um pouco com o estado do homem.
— Quem montou essa merda? – perguntou, mas já sábia a respota.
O homem tremia inteiro. Ainda choramingando.
— Eu… eu…
Ruslan disse um nome.
— Aleksander.
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
E então aconteceu.
Os olhos do homem se moveram.
Só um pouco.
Mas foi suficiente.
Ruslan sorriu.
Devagar.
Sem humor.
Ele sabia .
Rurik percebeu também.
— Filho da puta…– de forma pensativa.
Ruslan se levantou.
Calmo.
— Aleksander quer território.
Rurik cuspiu no chão.
— Então ele arma essa porra toda pra jogar a polícia em cima da gente. Ele enlouqueceu.
Ruslan pensou.
Não.
Aquilo era maior.
Aleksander era ambicioso.
Frio.
Calculista. Tinha mais ali...
— Ele está nos provocando. Quer uma reação. — disse Ruslan.
Rurik abriu um sorriso. selvagem e real dessa vez.
Um sorriso feio.
— Ótimo.
Ele virou para o homem.
— Então você vai falar tudo.
O homem chorava.
— Eu não sei mais nada!
Rurik riu.
— Todo mundo sabe alguma coisa.
Ruslan caminhou até a escada.
Já tinha ouvido o suficiente.
Antes de subir, disse apenas:
— Não mata ele ainda.
Rurik respondeu sem olhar. Ainda sorrindo.
— Depende do que ele tem à dizer.
Ruslan subiu as escadas. Andou pelos correfores e foi direto para seu quarto em direção a varanda.
O ar frio da noite bateu no rosto dele.
Silencioso.
A cidade estava viva.
Luzes.
Carros.
Pessoas que não faziam ideia de que uma guerra estava começando.
Ruslan acendeu um cigarro.
Inspirou devagar.
Pensando.
Aleksander achava que tinha feito um movimento inteligente.
Armar um assassinato.
Usar Rurik.
Atrair polícia.
Imprensa.
Caos.
Ruslan soltou a fumaça no ar.
Erro seu, pensou.
Porque agora…
Isso tinha ficado pessoal.
E quando algo ficava pessoal para Ruslan Volkov…
Alguém sempre acabava enterrado.
