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Dívidas de Amor e Ódio

Mayla_Cristo
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Synopsis
entre o ódio e desejo de pertencer flora se afoga na sua própria armadilha
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Chapter 1 - O AÇÚCAR, O SANGUE E A CINZA

— Eles nunca entendem, Jen. Acham que porque a gente trabalha no escuro, nossa dignidade ficou guardada na luz do dia.

— Ele me chamou de "meu amor" e tentou passar a mão na minha coxa por trás do palco. Eu disse que o preço era o divórcio dele, porque eu ia ligar pra mulher dele se ele não tirasse a pata de cima de mim — Jenny deu uma piscada, mas o brilho nos olhos dela era de puro cansaço. — A gente ri, mas tem dia que o estômago embrulha só de ver (Cinco anos atrás) 

Flora

​O som da festa de despedida de Ace atravessava as paredes da mansão Hastings como um batimento cardíaco abafado. O tilintar de taças de cristal e o murmúrio da elite de São Paulo pareciam distantes, quase irreais. Ali, na cozinha de mármore branco, o ar era pesado, carregado com o cheiro de baunilha e o calor dos fornos.

​Eu tinha 17 anos e tentava concentrar toda a minha ansiedade em moldar aquela massa. Meus dedos tremiam. Ace era o meu norte, o ponto fixo em torno do qual minha vida orbitava. Ele era quatro anos mais velho, um homem que já ocupava o espaço de um gigante, herdando não apenas o sobrenome, mas a gravidade silenciosa dos Hastings.

​A porta de vaivém abriu com um estalo seco. Eu não precisei olhar para saber que era ele; o ar no cômodo pareceu mudar de densidade, ficando mais rarefeito. Ace entrou com passos lentos, mas preenchedores. Ele havia abandonado o paletó; a camisa branca estava com o colarinho aberto e as mangas dobradas até os cotovelos, expondo a pele bronzeada e a força dos antebraços.

​— Hannah — a voz dele foi um comando baixo, quase um sussurro, mas que fez a governanta baixar a cabeça e sair imediatamente.

​Ficamos sozinhos. O silêncio da cozinha era cortado apenas pelo tique-taque do relógio de parede e pela minha respiração, que insistia em travar na garganta. Ace caminhou até parar exatamente atrás de mim. Eu sentia o calor que emanava do corpo dele antes mesmo de ele me tocar.

​Ele envolveu minha cintura com as mãos grandes, puxando-me para trás até que minhas costas batessem no peito dele. O contraste era violento: o mármore gelado na minha frente e o fogo do corpo de Ace atrás de mim.

— Você acha que um bolo vai me fazer sentir sua falta, Flora? — Ele inclinou a cabeça, a boca roçando a curva do meu pescoço, enviando uma descarga elétrica por toda a minha coluna. — Você acha que quatro anos de distância podem mudar o fato de que cada batida do seu coração me pertence?

​Ele virou meu corpo devagar, segurando meu rosto com uma delicadeza que doía. O polegar dele limpou um traço de farinha da minha bochecha, mas a pressão era firme, reivindicando território.

— Prometa — ele murmurou, os olhos escuros fixos nos meus, devorando qualquer rastro de dúvida. — Prometa que vai esperar. Que não vai deixar nenhum desses garotos lá fora chegar a menos de um metro de você. Eu não aceito nada menos que a sua lealdade total, Flora.

— Eu sou sua, Ace. Sempre fui... — o sussurro saiu mais como um suspiro.

​Ele sorriu, um gesto raro que suavizou suas feições, mas não diminuiu a intensidade do olhar. Ele me puxou para mais perto, escondendo o rosto no meu cabelo por um momento, aspirando meu cheiro como se estivesse tentando memorizá-lo para sobreviver aos anos longe.

— Você ainda é tão jovem, tão doce — ele disse, a voz rouca de uma proteção quase sufocante. — Mas eu vou voltar. E quando eu voltar, o mundo inteiro vai saber que você é a minha mulher. Nada vai nos separar.

​O beijo foi uma promessa selada em fogo. Começou lento, quase carinhoso, até que a necessidade dele transbordou, tornando-se profunda e faminta. Quando ele se afastou, seus olhos brilhavam com uma determinação que me deixava sem fôlego.

​Lá fora, a brisa da noite trazia o perfume dos jardins. Ace me levou até o círculo de seus amigos mais íntimos. Ele sentou-se em uma poltrona larga de vime e, com um movimento possessivo, me puxou para sentar no braço do móvel, ao seu lado. A mão dele subiu imediatamente para a minha nuca, os dedos brincando com os fios do meu cabelo, mantendo-me ancorada ali.

​Nick e os outros discutiam planos para o verão na Europa, mas eu mal conseguia ouvir. Toda a minha existência estava concentrada no ponto onde a mão de Ace tocava a minha coxa. Sob o tecido fino do meu vestido de verão, os dedos dele começaram um movimento lento, subindo e descendo com uma calma torturante.

​Era um toque de propriedade. Ele conversava com os amigos, mantendo o tom de voz equilibrado e o olhar atento à conversa, mas sua mão nunca parava. O polegar dele pressionava levemente a parte interna da minha perna, provocando arrepios que eu lutava para esconder. Eu sentia meu rosto esquentar, a pulsação acelerada ecoando nos meus ouvidos.

​Cada vez que um dos amigos dele olhava na minha direção, Ace apertava levemente minha perna, um lembrete silencioso de que eu estava sob a guarda dele. Eu me sentia protegida e, ao mesmo tempo, completamente exposta por aquele toque escondido. O desejo era uma névoa densa, dificultando meu raciocínio. Eu queria me afastar para recuperar o fôlego, mas ao mesmo tempo, queria me fundir a ele.

​— Ela vai sentir sua falta, Ace — Nick comentou, com um meio sorriso.

Ace desviou o olhar da conversa e olhou para mim. Ele deslizou a mão pela minha perna até segurar minha mão, entrelaçando nossos dedos com força.

— Ela não vai ter tempo de sentir falta — Ace respondeu, a voz carregada de uma promessa que só eu entendia. — Porque eu estarei presente em cada pensamento dela, até o dia em que eu coloque a aliança no seu dedo.

​Naquela noite, sob o céu estrelado da mansão Hastings, eu me senti a pessoa mais amada e protegida do mundo. Eu não sabia que o excesso dessa proteção era a mesma corda que, anos depois, apertaria o meu pescoço

presente

O apartamento no terceiro andar cheirava a café requentado e ao laquê barato que Jenny usava para domar a peruca platinada. O espelho do banheiro, com as bordas manchadas de umidade e mofo, refletia duas mulheres que a cidade tentava mastigar todos os dias. Jenny estava sentada no topo do vaso sanitário, retocando o batom vermelho-sangue enquanto equilibrava um cigarro aceso entre os dedos trêmulos.

— Você não acredita, Flora — Jenny soltou uma risada rouca, a fumaça saindo em espirais para o teto descascado. — O cara de ontem, aquele com o relógio de ouro falso e bafo de conhaque... ele realmente achou que os duzentos reais de gorjeta vinham com um bônus de motel. Ele me olhou como se eu fosse um cardápio e perguntou "quanto pelo pacote completo, anjo?".

Eu soltei uma risada seca, lutando contra o zíper emperrado do meu short jeans curto. Minhas mãos estavam ásperas, resultado de turnos duplos lavando pratos e carregando caixas.

Saímos do prédio sob a garoa fina e gelada, o tipo de chuva que penetra nos ossos e não pede licença. O trajeto até o Black Velvet era uma marcha silenciosa de dez minutos, desviando de poças de óleo e segurando as bolsas rente ao corpo. O bar era um antro de luzes roxas pulsantes e graves que faziam o esterno vibrar antes mesmo de cruzarmos a entrada. O cheiro de cerveja choca, suor e desinfetante de pinho nos atingiu como um soco.

O turno começou caótico. Às 22:00, eu já sentia minhas panturrilhas queimarem. Eu equilibrava bandejas pesadas com uísque barato e baldes de gelo, atravessando a multidão de homens que esticavam o pescoço para ver o movimento das meninas no pole dance. O barulho era ensurdecedor, uma mistura de música eletrônica genérica e gritos de bêbados.

À meia-noite, a exaustão era uma névoa densa. Meus olhos ardiam por causa da fumaça de cigarro e narguilé. Foi quando precisei servir a mesa 14 pela quinta vez. O sujeito estava lá desde o início da noite, rodeado de garrafas vazias e cercado por dois amigos que riam de cada comentário baixo que ele fazia quando eu passava.

— Ei, boneca! — ele gritou, a voz arrastada, segurando meu braço com uma mão pegajosa enquanto eu tentava recolher os copos vazios. — Vem cá. Quanto custa pra você ser legal comigo de verdade? Você é bonita demais pra estar aqui carregando resto de bebida. É uma barata nesse chão sujo, mas anda com o nariz empinado como se fosse dona de tudo. Quanto?

Eu puxei meu braço com força, mantendo o rosto impassível. O segredo era não dar o que eles queriam: uma reação. O ignorei completamente, as costas eretas enquanto voltava para o balcão. Mas o desrespeito fermentava no ar.

Dez minutos depois, o bar estava no auge do movimento. Eu carregava uma bandeja de metal carregada com seis canecas de chope transbordando, o peso fazendo meus ombros latejarem. Quando passei novamente pela mesa 14, o corredor estava estreito.

No momento em que dei o passo para ultrapassá-lo, senti o impacto. Foi um tapa seco, violento e possessivo bem no meio da minha bunda. O som estalou no ar, mais alto que a batida do DJ na minha cabeça. Ele soltou uma gargalhada gutural, olhando para os amigos como se tivesse acabado de realizar um feito heróico.

Eu parei. O mundo ao redor congelou. O calor do tapa subiu pelas minhas costas como uma labareda de puro ódio. Lentamente, eu me virei. Ele ainda estava rindo, a mão suada voltando para o copo de cerveja com uma arrogância insuportável.

Não houve pensamento lógico. Apenas a explosão.

Abri os dedos e deixei a bandeja de metal inclinar. O som do vidro estourando no chão foi o sinal de início. Antes que ele pudesse processar o que estava acontecendo, eu segurei a bandeja pesada com as duas mãos e a descarreguei na cara dele com toda a força que eu tinha.

Um. O metal bateu direto no nariz dele, e o som de osso quebrando foi a coisa mais satisfatória que ouvi na semana.

Dois. Um golpe lateral que o fez tombar da cadeira, espalhando sangue pela mesa de fórmica.

Dois golpes não foram suficientes.

Três. Desci a borda da bandeja no peito dele enquanto ele tentava se levantar, empurrando-o de volta para o chão sujo de cerveja.

— Vai se fuder, seu lixo! — eu gritei, minha voz cortando o barulho do bar. — Eu não sou o seu brinquedo! Toca em mim de novo e eu te mato aqui mesmo!

O bar inteiro silenciou. Os amigos dele recuaram, assustados com a fúria nos meus olhos. Quando dei um passo para trás, tentando controlar a respiração errática, vi a figura de Davis, o gerente, parado perto da cabine do DJ. Ele estava com os braços cruzados, a expressão gélida.

— Merda — sussurrei para mim mesma.

Saí pelas portas de serviço, sentindo o ar frio do beco bater no meu rosto suado. Minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o isqueiro. Acendi um cigarro, tragando o veneno para tentar acalmar o coração que batia violentamente contra as costelas. Logo, Jenny apareceu, o rosto preocupado sob as luzes de neon roxas.

— Flora! Meu Deus, você quebrou o nariz do cara! — ela sussurrou, segurando meus braços. — Você está bem? Ele te machucou muito?

— Eu não aguento mais, Jen. Eu juro. Estou farta de ser tocada como se eu não tivesse alma, como se eu fosse um pedaço de carne em exposição.

— Eu sei, amiga. Eu sei. Mas o Davis tá uma fera... ele está vindo.

Davis surgiu na penumbra do beco. Ele era um homem pequeno, de olhos gananciosos e gestos lentos.

— Terceira vez esta semana, Flora. Três clientes agredidos. Eu não sou um orfanato para justiceiras, eu gerencio um negócio.

— Ele me bateu, Davis! Ele me assediou na frente de todo mundo! — minha voz subiu, embargada pela injustiça.

— Davis, você viu o que aquele animal fez! — Jenny tentou intervir, mas ele a calou com um gesto.

— Não interessa. O prejuízo das garrafas e o cliente que vai espalhar que foi surrado por uma garçonete pesam mais que o seu orgulho. Você está fora. Passa na minha sala agora para a gente fechar sua conta.

Entrei na sala dele, o cheiro de mofo e cigarro barato era sufocante. Eu estava desesperada. O aluguel vencia na segunda-feira, a conta de luz estava atrasada e Jenny não conseguiria segurar as pontas sozinha.

— Davis, por favor — eu comecei, baixando o tom, a vulnerabilidade me rasgando por dentro. — Eu preciso desse dinheiro. Eu não posso ser demitida agora. A culpa não foi minha, ele começou...

Davis se inclinou na cadeira de couro sintético descascado. Ele me olhou de cima a baixo com um brilho asqueroso nos olhos. Ele sentiu o cheiro do meu medo e decidiu se aproveitar.

— É, Flora... você é um problema. Mas você tem esse corpo farto, esse rosto que não combina com esse lugar. — Ele abriu o zíper da calça lentamente, mantendo os olhos fixos nos meus. — Se você quiser manter o emprego e levar o seu bônus, tem um jeito fácil. Ajoelha aqui agora. Me masturba e me deixa gozar nesse seu peito farto. Se fizer direitinho, eu rasgo sua demissão e a gente esquece o que houve lá fora.

O asco que subiu pela minha garganta foi mais forte do que qualquer medo de passar fome. Olhei para aquele homem patético e senti um ódio frio cristalizar no meu peito.

— Sabe de uma coisa, Davis? — Eu me aproximei da mesa dele, fazendo-o sorrir achando que eu tinha cedido. — Você pode pegar esse seu emprego e esse seu "bônus" e enfiar no seu rabo. Vai se fuder você também.

Saí da sala batendo a porta com tanta força que o quadro na parede dele caiu. Eu estava desempregada, com as mãos sujas de sangue alheio e sem um centavo no bolso, mas pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que ainda tinha o controle da minha própria pele.

Eu só não sabia que o destino estava esperando na esquina para me cobrar um preço muito mais alto.