Capítulo 01 — A Porta
A morte não veio com dor.
Veio com silêncio.
Não havia céu, nem chão. Não havia cima ou baixo. Apenas um branco absoluto, tão vasto que os olhos não conseguiam encontrar limites. O homem tentou respirar — não por necessidade, mas por hábito — e percebeu que o ar estava ali apenas porque ele esperava que estivesse.
— Então… é isso? — murmurou.
A última coisa de que se lembrava era banal. Um dia comum. Uma vida comum. Nenhuma grande tragédia, nenhum sacrifício heroico. Apenas o fim.
Quando avançou um passo, algo surgiu diante dele.
Uma porta gigantesca.
Ela não estava apoiada em nada. Simplesmente existia. Alta demais para ser medida, larga demais para ser ignorada. Sua superfície era coberta por símbolos alquímicos, círculos de transmutação sobrepostos, fórmulas que se cruzavam e se contradiziam, inscrições que não pertenciam a língua alguma — e, ainda assim, ele as entendia.
Seu coração acelerou.
— Não… — sussurrou. — Não é possível…
Mas era.
Aquele lugar não era desconhecido.
Era o mesmo espaço onde Edward Elric estivera.
O mesmo vazio branco.A mesma porta.O mesmo peso invisível no ar.
— O Portão da Verdade… — disse, com a voz trêmula.
Mas havia algo errado.
Ele estava sozinho.
Nenhuma figura branca sentada à frente da porta.Nenhuma risada irônica.Nenhuma voz dizendo "Você quer conhecimento?"
A porta estava fechada.
Totalmente fechada.
E, pela primeira vez, ele percebeu algo que Edward nunca tivera:a porta tinha uma fechadura voltada para fora.
— Essa… — ele engoliu seco — essa porta é minha?
A simples ideia fez suas pernas fraquejarem.
Ele não era alquimista.
Nunca foi.
Nunca desenhou um círculo.Nunca estudou química além do básico.Nunca tentou transmutar nada.
Ele era apenas um fã.
Alguém que leu mangás.Assistiu animes.Debateu teorias em fóruns.
Nada disso deveria ser suficiente.
Ainda assim… ele sabia o que aquela porta significava.
O Portão não aparecia sem motivo.
O Portão cobra.
— Qual é o preço…? — perguntou ao vazio.
Nenhuma resposta.
O silêncio parecia observá-lo.
Então ele notou algo gravado no centro da porta, quase imperceptível:
"O conhecimento não pertence a quem pede.
Pertence a quem aceita o custo."
Suas mãos tremiam quando se aproximou.
— Edward perdeu o braço… a perna… — murmurou. — Outros perderam órgãos, sentidos… até a própria existência…
Ele olhou para o próprio corpo.
Estava inteiro.
Por enquanto.
— Se essa porta é minha… — disse, tocando a superfície fria — então o preço também será.
No instante em que sua pele encostou na porta, os símbolos se moveram.
Não giraram.Não brilharam.
Eles se alinharam.
Como se o reconhecessem.
A fechadura se abriu sozinha.
Sem esforço.
Sem resistência.
Isso foi o que mais o aterrorizou.
— Não… — sussurrou. — Não deveria ser tão fácil.
Mas a porta começou a se abrir.
E atrás dela… não havia luz.
Havia informação.
O impacto foi imediato.
Não como dor física, mas como uma avalanche esmagando a mente.
Ele caiu de joelhos.
Gritou.
Viu.
🔹 Estruturas moleculares se desfazendo e se recompondo🔹 Reações químicas complexas reduzidas a padrões simples🔹 Diagramas de transmutação se desenhando sozinhos🔹 O fluxo da energia alquímica🔹 O erro da transmutação humana🔹 O Portão como limite, não como divindade🔹 A Verdade como espelho
Ele viu tudo o que Edward Elric sabia.
Não apenas o que aprendera.Mas o que pagara para aprender.
Cada falha.Cada arrependimento.Cada conclusão amarga.
— Para! — ele gritou, segurando a cabeça. — Isso não é meu!
Mas a porta não se importava.
Conhecimento não pede permissão.
Ele sentiu algo ser retirado dele.
Não um braço.
Não uma perna.
Algo mais sutil.
Algo mais cruel.
Quando tudo parou, ele estava deitado no chão branco, ofegante, com lágrimas escorrendo sem perceber.
A porta estava fechada novamente.
Silenciosa.
Imóvel.
Ele tentou se levantar.
Conseguiu.
Estava inteiro.
Mas… algo havia mudado.
Quando fechou os olhos, entendia.
Entendia como transformar pedra em pó.Como separar metais.Como decompor água.Como um círculo podia ser desenhado até no ar, se as condições fossem corretas.
E, pior:
Entendia o que não deveria jamais tentar.
— Então esse é o preço… — murmurou.
Ele olhou para a porta uma última vez.
— Eu aceitei o conhecimento… mesmo sem pedir.
O branco começou a se desfazer.
O mundo puxou seu corpo para longe dali.
Antes de desaparecer, ele ouviu algo — não uma voz, mas um conceito gravado diretamente em sua mente:
"O mundo ao qual você vai não segue a Troca Equivalente."
"E é exatamente por isso que você será testado."
E então… ele nasceu novamente.
