Cherreads

Chapter 4 - O Encontro de Dois Séculos

A última folha de papel saiu da Smith Corona Classic com um som que, para Leo, ecoou como o disparo de largada de uma corrida de um bilhão de dólares. O ponteiro do relógio marcava 4:40 da manhã. Fora da janela do seu quarto em Burbank, o céu começava a mudar do preto absoluto para um roxo profundo e elétrico.

Leo esticou os dedos, ouvindo as articulações estalarem. Diante dele, empilhadas com uma precisão quase religiosa, estavam as 280 páginas de Jaws. Três cópias completas, separadas por folhas de papel carbono que haviam deixado suas digitais permanentemente manchadas de preto.

Ele não tinha apenas reescrito o livro de Peter Benchley. Ele o havia "editado" com a mentalidade de um produtor de 2026. Ele cortou as subtramas desnecessárias — como o caso extraconjugal de Ellen Brody com Matt Hooper, que Benchley inseriu para dar "peso literário" — e focou na tensão pura, no terror invisível e na força da natureza. Ele inseriu o monólogo do USS Indianapolis quase palavra por palavra como Robert Shaw o proferiria dez anos depois, sabendo que aquela era a alma da história.

— Está pronto — sussurrou Leo, a voz falhando pelo desuso. — Benchley nem sequer pensou nesse título ainda. Ele ainda está escrevendo obituários e colunas de jornal.

Leo guardou dois originais na caixa de metal de 35mm sob o assoalho. A terceira cópia, ele colocou cuidadosamente em uma pasta de couro barata. Aquela pasta não continha apenas papel; continha o primeiro tijolo do seu império.

...

Duas horas depois, a glória da criação foi substituída pela rotina esmagadora do set. Leo estava no pátio da Universal Pictures, carregando duas caixas pesadas de equipamentos de som para o Set 3, onde estavam filmando cenas internas de Blindfold, a comédia romântica com Rock Hudson e Claudia Cardinale.

O calor já estava subindo, e o cheiro de óleo de máquina e café Maxwell House forte impregnava o ar. Leo, agora um veterano na arte de ser invisível, movia-se entre os caminhões e os cabos de iluminação "brutes" com uma eficiência mecânica.

Foi perto da hora do almoço, enquanto ele levava uma bandeja de rosquinhas para a equipe de marcenaria, que ele o viu.

Perto do backlot, onde os cenários de ruas europeias se misturavam às fachadas do Velho Oeste, um jovem magro, de óculos levemente tortos e um nariz proeminente, estava agachado perto de uma fonte desativada. Ele segurava uma câmera 16mm portátil e olhava através da lente com uma intensidade que parecia capaz de queimar a película.

Ele não deveria estar ali. Ele não usava o distintivo de funcionário, nem o macacão cinza dos operários de manutenção. Ele vestia uma camisa xadrez simples e parecia um estudante que havia acabado de pular o muro.

Leo parou, a bandeja de rosquinhas ainda na mão. Seu cérebro de 2026 processou a imagem instantaneamente. As memórias, organizadas como uma biblioteca em sua mente, trouxeram a ficha técnica: Steven Spielberg. Idade atual: 18 anos. Status: "Intruso" oficial da Universal.

Leo sabia da lenda. Em 1965, um jovem Spielberg teria supostamente "invadido" o estúdio, ocupado um escritório vazio e começado a observar como os diretores veteranos trabalhavam até que ninguém mais o questionasse.

— O ângulo está errado — disse Leo, calmamente, enquanto se aproximava.

O jovem deu um pulo, quase derrubando a câmera de 16mm. Ele olhou para Leo com olhos arregalados, esperando uma bronca de um segurança ou um sermão de um assistente de direção raivoso.

— Eu... eu só estava verificando a profundidade de campo — gaguejou o garoto. — Eu tenho permissão para estar aqui... eu acho.

Leo deu um meio sorriso cínico.

— Se você quer capturar a sensação de perigo, não aponte para cima. Abaixe a câmera. O medo não vem do céu, Steven. O medo vem do que está abaixo de nós. Do que não podemos ver.

O jovem Steven travou. Ele olhou para Leo, depois para a câmera, e depois de volta para Leo.

— Como você sabe meu nome? E como você sabe o que eu estou tentando filmar?

Leo colocou a bandeja de rosquinhas em um caixote de equipamentos. Ele se aproximou, sua presença de homem de 34 anos presa no corpo de 22 emanando uma autoridade que o Spielberg de 18 anos não conseguia compreender.

— Eu vejo muita gente passar por aqui, Steven. A maioria quer ser o próximo Cary Grant. Poucos olham para a lente como se ela fosse o único olho de Deus. Você é um desses.

Spielberg ajeitou os óculos, a curiosidade superando o medo.

— Eu sou um estagiário... não oficial. Estou tentando aprender como eles fazem a luz funcionar no Technicolor. Andrew McLaglen me deixou observar o set de Shenandoah ontem, mas o AD me expulsou hoje de manhã.

— McLaglen é da velha guarda — disse Leo, acendendo um Lucky Strike. — Ele filma o que está no papel. Mas o cinema está mudando, garoto. Em breve, o que importa não será o que está na frente da câmera, mas como você manipula o coração de quem está na poltrona do cinema.

Leo alcançou a pasta de couro que havia deixado presa sob o elástico de sua prancheta de PA. Ele a abriu e puxou as primeiras cinco páginas do manuscrito de Tubarão.

— Leia isso — ordenou Leo.

Steven hesitou, mas a aura de mistério ao redor daquele assistente de produção era magnética demais. Ele pegou as folhas. Leo observou enquanto o jovem gênio começava a ler.

Spielberg leu a primeira página. Sua respiração mudou. Ele leu a segunda. Seus olhos se arregalaram. Quando chegou na cena em que a primeira vítima é puxada para as profundezas e apenas o silêncio da água permanece, ele olhou para Leo com uma expressão de puro choque.

— Isso... isso é visceral — sussurrou Spielberg. — Quem escreveu isso? É um roteiro?

— É um livro. E eu o escrevi — mentiu Leo com a convicção de quem sabia que a história agora era sua por direito de conquista. — Chama-se Jaws.

— "Jaws"... — Steven repetiu o nome, saboreando-o. — É curto. É afiado. É perfeito. Se você filmar isso... se você usar cortes rápidos para mostrar apenas partes do que está na água... meu Deus, as pessoas não conseguiriam respirar.

Leo sentiu um calafrio. Ele estava ouvindo o Spielberg de 1965 descrever a técnica que salvaria o Spielberg de 1975 quando o tubarão mecânico estragasse no set em Martha's Vineyard.

— Você entende, Steven — disse Leo, pegando os papéis de volta. — É por isso que você vai ser grande. Mas Hollywood ainda não está pronta para nós. Lew Wasserman ainda está contando centavos de musicais cafonas. Robert Evans ainda é apenas um garoto de bronzeado bonito na Paramount.

— Como você sabe de tudo isso? — Steven perguntou, agora genuinamente fascinado. — Você é apenas um PA, não é?

Leo deu um passo à frente, o rosto metade na sombra, metade sob o sol saturado de 1965.

— Eu sou o homem que vai mudar o jogo, Steven. E se você continuar por aqui, talvez eu precise de um diretor que não tenha medo de se molhar.

Leo deu um tapinha no ombro do garoto, pegou sua bandeja de rosquinhas e começou a se afastar.

— Espere! — gritou Spielberg. — Onde eu te encontro? Qual o seu nome?

Leo parou, mas não se virou totalmente.

— Meu nome é Leo. E não se preocupe, Steven. Da próxima vez que nos virmos, eu não estarei carregando rosquinhas. Eu estarei carregando o contrato do seu primeiro filme.

...

Leo caminhou de volta para o Set 3, o coração batendo com uma calma glacial. Ele havia plantado a semente na mente mais fértil da história do cinema. Agora, ele precisava do capital.

Ao passar pela "Torre Negra" da MCA, ele viu a limusine preta de Lew Wasserman estacionar. O "Zeus" de Hollywood estava saindo para o almoço. Leo sabia que em sua pasta, além de Tubarão, ele já tinha os primeiros esboços de Love Story.

Se o terror era sua espada, o romance seria seu escudo. Ele não ia apenas bater na porta de Hollywood. Ele ia derrubá-la com um chute.

Naquela noite, sob o brilho neon de Burbank, Leo se sentou novamente diante da máquina de escrever. O som das teclas não era mais apenas trabalho. Era o som da história sendo reescrita, batida a batida, página por página.

— Desculpe, Peter — murmurou Leo para o nada, enquanto datilografava o título da próxima obra: Love Story. — Mas desta vez, o amor significa... nunca ter que pedir permissão para ser o dono da cidade.

More Chapters