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Chapter 2 - O Ciclo de Sísifo em Technicolor

O cheiro foi a primeira coisa que reivindicou sua consciência. Não era o aroma estéril, quase cirúrgico, dos estúdios repletos de LED de 2026. Era algo mais denso, mais perigoso e infinitamente mais vivo. Leo sentiu o ataque agressivo do tabaco de um Lucky Strike queimando nas proximidades, misturado ao odor químico e adocicado de película de nitrato, óleo de máquina quente e o suor honesto de centenas de homens trabalhando sob o sol implacável da Califórnia.

Ele tentou abrir os olhos, mas uma luz cegante o forçou a fechá-los novamente. Não era apenas o sol. Era uma saturação cromática que parecia artificial. Quando finalmente conseguiu focar, o mundo ao seu redor não parecia real; parecia processado pelo sistema Technicolor de três tiras. O azul do céu era de um cobalto profundo que nenhum sensor digital de 2026 conseguiria capturar com tanta alma. O vermelho dos Ford Mustangs estacionados no pátio brilhava com uma intensidade que parecia saltar da retina.

Leo sentiu o chão sob ele. Não era o linóleo impecável da Paramount de sua morte, mas o asfalto áspero e quente de um galpão de figurinos.

— Acorda, seu imprestável! Acha que a Universal te paga para tirar soneca no meio do turno?

Um chute agudo atingiu o bico de sua bota de couro. Leo deu um solavanco, o coração disparando — um coração que, ele notou com um choque elétrico, não doía mais. A pressão de elefante no peito havia sumido. Ele olhou para cima e viu um homem de meia-idade, com um chapéu fedora ligeiramente inclinado e uma prancheta de madeira na mão. O rosto era vincado por décadas de cafeína e desdém. Era um Primeiro Assistente de Direção (1st AD) da velha guarda.

— Desculpe, senhor... eu... eu apaguei por um segundo — murmurou Leo.

Sua voz soou estranha. Estava mais profunda, mais limpa, sem a rouquidão de quem fumou vapes baratos por dez anos. Ele olhou para as próprias mãos enquanto se levantava. Onde antes havia as manchas de idade e as cicatrizes de túnel carpal de um homem de 34 anos exausto, agora havia a pele firme e os nós dos dedos fortes de um jovem de pouco mais de vinte anos. Ele vestia uma camiseta branca de algodão pesado e calças de sarja escura. No bolso da frente, um maço de cigarros Lucky Strike e um isqueiro Zippo.

— Não me venha com desculpas. O Sr. Wasserman não construiu esta torre negra para que gophers como você ficassem sonhando acordados — o AD rosnou, entregando-lhe uma pilha massiva de papéis datilografados. — Leve esses roteiros e os sides para o escritório de produção agora. E depois, direto para o Set 12. Eles estão rodando Shenandoah e precisam de alguém para limpar a lama das botas dos figurantes antes que o Technicolor denuncie que aquilo é pó de serra molhado.

Leo pegou os papéis. O toque do papel era real. O peso era real. Ele caminhou para fora do galpão e o choque o atingiu como uma marreta.

Ele estava no pátio da Universal Pictures. Mas não era a Universal que ele conhecia. No horizonte, a famosa "Torre Negra" da MCA, o império de Lew Wasserman, erguia-se como o monólito de poder que ditava as regras de Hollywood. O letreiro da Universal era clássico, imponente. Caminhões de transporte de metal pesado, sem os designs aerodinâmicos do futuro, roncavam pelo pátio. Câmeras Mitchell imensas, verdadeiras feras de ferro que exigiam três homens para serem movidas, eram empurradas em carrinhos de madeira.

Uma música tocava em um rádio transistorizado em um balcão de serviço próximo: "You've Lost That Lovin' Feelin'" dos Righteous Brothers. O hit número um de fevereiro de 1965.

Leo parou diante de um espelho de camarim que estava sendo transportado por dois operários. O rosto que o olhava de volta era o de um jovem de 22 anos, com uma mandíbula quadrada e olhos que carregavam um cinismo que não pertencia àquela década. Ele era bonito de uma forma clássica, mas seu olhar era o de um homem que já tinha visto o fim do mundo.

A ironia era uma lâmina afiada em sua garganta. Ele havia morrido de ataque cardíaco por excesso de trabalho como um assistente de produção em 2026, apenas para renascer exatamente na mesma posição em 1965. O Ciclo de Sísifo. Ele estava novamente na base da colina de Hollywood, condenado a empurrar a mesma pedra de tarefas ingratas, cafés ruins e humilhações diárias.

— Leo! O que você está esperando? — gritou o AD à distância. — Se você não se mexer, vou te mandar de volta para a fila de desempregados antes do Abby Singer!

Leo começou a correr. Seus novos pulmões processavam o ar com uma eficiência que ele havia esquecido que existia. Enquanto atravessava o pátio, ele viu figuras que reconhecia dos livros de história. No Set 12, ele viu o perfil inconfundível de James Stewart conversando com o diretor Andrew V. McLaglen. Stewart parecia uma estátua de dignidade americana, mesmo cercado pela confusão de cabos e refletores "brutes" que emitiam um calor infernal para compensar a baixa sensibilidade da película colorida da época.

Leo foi direto para a tarefa mais humilhante: ajoelhar-se no chão com uma escova e um balde para limpar a lama cenográfica das botas de couro dos soldados confederados de Shenandoah. O sol de fevereiro queimava seu pescoço, e o cheiro da lama química o deixava tonto.

Enquanto esfregava, sua mente trabalhava em uma velocidade furiosa. Ele não era apenas um jovem de 22 anos em 1965. Ele era um portador do futuro.

Ele sabia que, naquele exato momento, o sistema de estúdios estava desmoronando. Lew Wasserman estava tentando integrar a TV e o cinema, mas os "velhos magnatas" como Jack Warner ainda achavam que musicais gigantescos e épicos históricos eram a salvação. Eles não tinham ideia da tempestade que estava chegando. Eles não sabiam que, em poucos anos, o público jovem exigiria realismo, sexo e violência. Eles não sabiam que a "Nova Hollywood" estava prestes a nascer das cinzas desses mesmos sets Technicolor.

Leo olhou para o roteiro que ainda carregava debaixo do braço. Era um musical genérico chamado The Silver Lark. Ele se lembrou vagamente de ter lido sobre ele em um blog de história do cinema: foi um fracasso catastrófico que quase levou a Universal a um corte de custos severo em 1966. Eles iam gastar milhões em algo que ninguém queria ver.

Uma centelha de ambição, mais quente que qualquer refletor, começou a queimar em seu peito.

"Eu conheço o roteiro de cada sucesso que ainda não foi escrito", ele pensou, enquanto limpava a bota de um figurante que nem sequer sabia seu nome. "Eu sei que Peter Benchley ainda é um jornalista desconhecido e só vai ter a ideia de Tubarão daqui a seis anos. Eu sei que Stephen King está na faculdade e que a ideia de um carro assassino chamado Christine está a décadas de distância. Eu sei que Erich Segal ainda está ensinando clássicos em Yale antes de escrever Love Story."

Se ele estava condenado a ser o "gofer", o faz-tudo, o fantasma do set, ele usaria essa posição para o que ela realmente era: o acesso total. Um assistente de produção era invisível. Ele podia entrar em escritórios de produtores, ouvir conversas secretas de agentes e colocar manuscritos em pilhas de leitura que ninguém mais podia tocar.

Em 1965, a indústria editorial era dominada pelo "slush pile" — montanhas de manuscritos não solicitados que eram lidos por assistentes entediados. Leo sabia como escrever. Ele sabia como estruturar um blockbuster moderno antes mesmo do termo existir. Ele tinha em sua mente a estrutura narrativa de 2026: o ritmo acelerado, os ganchos emocionais e o marketing visceral.

Ele se levantou, sentindo a força em suas pernas. O figurante o ignorou, caminhando em direção à marca no chão — a "banana" que o AD havia ordenado para evitar que ele bloqueasse a luz de James Stewart.

Leo olhou para as mãos sujas de lama e sorriu.

— Senhor — disse Leo, voltando-se para o AD que passava novamente. — Os roteiros foram entregues. O que mais?

O AD olhou para ele, surpreso pela falta de resistência no tom do jovem.

— Leve o café para o Sr. McLaglen. E garanta que esteja quente. Maxwell House, sem açúcar. E depois, ajude o Best Boy a enrolar os cabos de alimentação do Set 14. Temos um longo dia, Leo. Estamos no "Golden Time" a partir das seis.

"Vá em frente", pensou Leo, enquanto pegava a bandeja de café. "Mande-me limpar o chão, carregar os cabos e servir os deuses. Cada café que eu sirvo é uma chance de observar como eles operam. Cada cabo que eu enrolo me ensina a logística de produção que vou comandar no futuro."

Ele entrou no refeitório da Universal. O ar estava pesado com o cheiro de bifes fritos e molho Thousand Island — o favorito dos diretores da época. Ele viu Robert Evans, ainda um jovem produtor com um bronzeado impossível e cabelos oleosos, rindo com uma atriz cujo rosto Leo reconheceu como uma futura lenda do cinema de terror. Evans ainda não era o chefe da Paramount; isso só aconteceria no ano que vem. Ele ainda era "o garoto que ficava no filme".

Leo percebeu que Sísifo não ia apenas carregar a pedra desta vez. Ele ia usá-la para esmagar o status quo. Ele ia escrever o primeiro capítulo de Tubarão naquela noite, em uma máquina de escrever alugada, em um quarto de hotel barato em Burbank. Ele ia lançar o primeiro blockbuster da história dez anos antes de Spielberg sonhar com um tubarão mecânico.

— Technicolor — Leo sussurrou para si mesmo, enquanto entregava o café ao diretor McLaglen. — É um belo mundo para se conquistar.

O diretor mal olhou para ele. Apenas pegou a xícara e continuou gritando ordens. Leo não se importou. Ele já estava vendo os créditos finais, e desta vez, o nome dele seria o primeiro a aparecer.

Nota do Autor: Este capítulo estabelece o contraste entre a dureza física do trabalho de PA nos anos 60 e o poder mental do protagonista. Ele agora possui a "arma" do conhecimento futuro e a oportunidade de observar os gigantes de Hollywood antes de eles se tornarem mitos. No próximo capítulo, Leo iniciará seu plano literário, enfrentando os desafios de publicar como um "ninguém" em 1965!

O que achou desta imersão estendida? Tentei focar no contraste entre a beleza visual da época e a sujeira do trabalho real nos sets.

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